Cassiano Branco

 
 
 





> Código de referência PT/AMLSB/CB

> Data(s) 1871-1969

> Nome(s) do(s) produtor(es)
Branco, Cassiano. 1897-1970, arquiteto


> História administrativa / biográfica

Cassiano Branco, filho de Cassiano José Branco e de Maria de Assunção Viriato, nasceu em Lisboa, a 13 de agosto de 1897, na rua do Telhal, junto aos Restauradores, no começo da avenida da Liberdade, para a qual desenhou alguns dos seus projetos mais emblemáticos. Iniciou o percurso de instrução em 1903, na primária e, posteriormente, em 1912, no liceu. Matriculou-se, pela primeira vez, em 1919, na Escola de Belas-Artes de Lisboa, tendo interrompido a frequência, para ingressar no Ensino Técnico-Industrial. Regressado de Paris, onde esteve na Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels, em 1925, Cassiano Branco, iniciou o seu percurso profissional como arquiteto diplomado, no ano seguinte. Todavia, a sua atividade projetual começou em 1921, com uma proposta para o mercado municipal da Sertã, no qual evidenciou uma estilística de raiz clássica, reflexo da sua formação académica na Escola de Belas-Artes de Lisboa. Em 1929, Cassiano Branco recebeu a encomenda para intervir em duas salas de espetáculos: o Coliseu dos Recreios e o Éden Teatro. No primeiro caso, tratou-se de um projeto de alterações a efetuar nos corredores, no palco e na cúpula. Já o trabalho a desenvolver no teatro, foi bastante mais controverso e ambicioso, mormente a ampliação desse espaço, com o duplo objetivo de tornar possível a exibição do cinema sonoro e de aumentar o número de espetadores.

Tendo sido, possivelmente, a obra mais emblemática de Cassiano Branco e um dos marcos na arquitetura moderna portuguesa, o projeto do Éden Teatro, apenas inaugurado a 1 de abril de 1937, foi, contudo, atribuído ao engenheiro civil Alberto Alves Gama e ao arquiteto Carlos Dias, seu colaborador, que o concluiu. Apesar dos elementos mais notáveis das alterações efetuadas ao Éden Teatro poderem ser encontrados nas duas primeiras propostas de Cassiano Branco, o arquiteto, nunca reivindicou a sua autoria, pese esta ser unânime entre os estudiosos da sua obra. Ainda numa fase inicial da sua vasta e multifacetada trajetória, Cassiano Branco, com apenas 32 anos, apresentou, em 1930, dois dos seus projetos mais ambiciosos e vanguardistas, mas que nunca passaram do papel: o plano de urbanização da Costa da Caparica e a Cidade do Cinema Português, em Cascais. Excluído das encomendas oficiais, a parte mais substancial da obra de Cassiano Branco, proveio de clientes particulares e de construtores civis, predominantemente, através de encomendas de prédios de rendimento, a integrar em malhas urbanas consolidadas. A partir de 1938, foram raros os prédios em Lisboa assinados por ele, presumivelmente, por ter estado, a partir dessa data, ocupado com os projetos do Grande Hotel do Luso e do Coliseu do Porto, para lá do trabalho que iniciara no Portugal dos Pequenitos, em 1937. O Coliseu do Porto, com o qual Cassiano Branco encerrou a sua atividade projetual, nos anos 30, afirmou-se como uma obra de síntese, de grande maturidade estilística e de plena modernidade. Porém, após a Exposição do Mundo Português, em 1940, iniciou uma nova fase, que atravessou os anos 40, visivelmente marcada pela falta de trabalho e de quase total abandono de programas arquitetónicos de feição moderna que, no decénio anterior, haviam sido expoente máximo em Portugal.

Nos anos 50, a carreira de Cassiano Branco foi objeto de adversidade, ao terem-lhe recusado dois projetos, respetivamente, o do hotel Infante de Sagres, em 1950 e o de ampliação do edifício da sede da Junta Nacional do Vinho, em 1957. Ambos revelaram uma tentativa, por parte do arquiteto, de integração numa estílica moderna, objetivo, que não obstante o esforço, não foi concretizado. Na década de 60, Cassiano Branco elaborou alguns projetos, em que demonstrou um último ensejo de concordância com a arquitetura de influência internacional, como a segunda proposta de ampliação do edifício da sede da Junta Nacional do Vinho, em Lisboa, assim como os projetos para o posto fronteiriço de Galegos, em Marvão, para o Grémio do Comércio dos Concelhos de Torres Vedras, Cadaval e Sobral de Monte Agraço, para o edifício para os Correios, Telefones e Telégrafos (CTT), em Portimão, e ainda, os estudos realizados para um edifício na Rebelva, na Parede, entre outros. Ainda assim, nenhum do edificado projetado acabou por ser construído.

Para além dos exemplos anteriores, a alternância entre um ecletismo de inspiração tradicional e de inspiração moderna, ficou mais uma vez assinalada, no último projeto de Cassiano Branco, para o concurso público do Banco de Portugal, da agência de Évora. A solução apresentada foi, mais uma vez, reprovada e constituiu um derradeiro exemplo da ambiguidade que marcou a sua obra desde 1940. A prolixa e diversificada obra de Cassiano Branco, de grande riqueza formal, desenvolvida entre meados dos anos 20 e o final da década de 1960, consagrou-o como um dos arquitetos que, mais indelevelmente, marcou a primeira geração moderna. Embora não tenha feito parte do grupo de pioneiros do modernismo, é inegável a sua importância na história da arquitetura portuguesa, da primeira metade do século XX, tendo sido, seguramente, um dos mais conhecidos e estudados.

O contexto histórico da sua vasta e notável obra, associado à sua personalidade, é indispensável, para compreender a complexidade de um percurso, muitas vezes polémico, que, iniciado no período pré-modernista da Primeira República, tendeu a ser interpretado à luz da Modernismo e do Português Suave. De facto, foi possível distinguir claramente na obra de Cassiano Branco duas fases distintas. A primeira, iniciada pouco depois de concluir a sua licenciatura, perdurou até finais dos anos 30 do século XX e caraterizou-se por projetos de extrema criatividade como o hotel Vitória e o Éden Teatro, que lhe conferiram reconhecimento como um dos mais importantes arquitetos modernos a nível nacional. A segunda fase, na década de 40, revelou uma cedência ao estilo normalmente apelidado de Arquitetura do Estado Novo, impedindo-o de expressar a matriz inovadora dos primeiros anos. Cassiano Branco faleceu em Lisboa, a 24 de abril de 1970.

> História custodial e arquivística

A documentação foi adquirida pela Câmara Municipal de Lisboa, em 1990. Encontra-se atualmente à guarda do Arquivo Municipal de Lisboa, que a detém, em regime de usufruto e de propriedade jurídica.




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