Eduardo Portugal

 
 
 
EDUARDO PORTUGAL – fotógrafo e colecionador 

O trabalho fotográfico de Eduardo Portugal (1900- 1958) destaca-se no acervo fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa/Fotográfico, por ter colaborado com a Câmara Municipal de Lisboa, tendo fornecido várias imagens da cidade no suporte original do negativo e pelo facto da família, mais tarde, ter doado todo o seu espólio ao Arquivo Municipal de Lisboa. O período de produção situa-se entre 1919 e a década de 1950. A relação estreita com a edilidade demonstra bem o conteúdo de muitas das suas imagens, focadas no registo da capital, enaltecendo esta com as suas fotografias primorosamente registadas. Do vasto conjunto encontramos ruas, monumentos, desfiles, reprodução de gravuras e documentos alusivos à cidade. Há um claro enfoque na cidade e a comprová-lo está também o facto de ser sócio, do Grupo Amigos de Lisboa, com uma colaboração assídua. 

O fotógrafo, erudito e culto, bem conhecedor de outras cidades europeias, era um homem à frente do seu tempo no que concerne ao registo fotográfico. Na época, Eduardo Portugal já evidenciava o gosto de colecionar imagens antigas da cidade através da recolha de fotografias de conterrâneos famigerados que, pela fotografia, provaram ser um meio privilegiado de constituir a memória de uma cidade. Entre eles, destacamos Francesco Rocchini (1821-1893) e António Novais (1855-1940), este último representado no seu espólio por um conjunto de 219 negativos em nitrato de celulose, constituindo um núcleo e, mais tarde, incorporando numa coleção com o nome do autor.

Esta atitude demonstra que Eduardo Portugal usava as imagens dos outros para estudar a cidade que tão bem fotografava, evidenciando uma atitude contemporânea de colecionador de imagens, talvez por reconhecer o valor deste património. Com certeza, a partir dos outros também aprendia modos de olhar a cidade, recuperando testemunhos válidos para o seu trabalho. 

O fotógrafo congrega a figura do técnico que conhece bem a prática fotográfica e que sabe conciliar o seu conhecimento e a sua cultura visual para constituir novas imagens da cidade num período nacional ainda pobre culturalmente.

Nas décadas 1920 até 1950, a produção fotográfica em Portugal, ainda insipiente contava com participações do fotojornalismo, algum amadorismo organizado com os salonistas a emergirem e formas comerciais que começaram a expandir-se. Eduardo Portugal não se enquadra nestas abordagens… Com o fomento do turismo, que acolhe agrado da parte do regime vigente da época – o retrato dos monumentos nacionais, do crescimento da cidade, enfim, do modernismo urbano que tanto se ambicionava, o fotógrafo desenvolve o seu trabalho numa vertente ainda pouco explorada, num registo de promoção do património nacional. 

Da cidade de Lisboa, surgem as imagens bem arrumadas e tecnicamente irrepreensíveis, onde as pessoas estão diluídas na malha urbana dos edifícios e do arruamento. As fotografias das transformações ocorridas, de um espaço em construção, reportam para um crescimento saudável e desejado de uma capital europeia tão distante das grandes capitais, mas com grande vontade de se aproximar. No período referido, a fotografia de Eduardo Portugal ilustra algo novo: embeleza a cidade e os monumentos e apresenta em postais, calendários e outros materiais de divulgação turística, as imagens do país ao estrangeiro que o visita em edições com idiomas inglês e francês. 

Este tipo de edição, que tanto encantou o fotógrafo, será o veículo da imagem turística. Bem conhecedor da história de Lisboa, é atento às ruelas dos bairros históricos, ao crescimento das avenidas da periferia da cidade, mostrando os contrastes do edificado lisboeta, as vias circundantes em amplas estradas e novos viadutos. 

As fotografias de Eduardo Portugal escondem a desorganização e a sujidade e conseguem destacar, pelo domínio técnico, a beleza de todos os pormenores representados. O fotógrafo é exímio na tomada de vista. A luz é primorosa, o contraste é bem registado e as impressões fotográficas muito rigorosas. Trata-se de um excelente fotógrafo, atento à prática. Saber fazer é para ele a palavra de ordem e as suas imagens testemunham bem essa intenção.

Eduardo Portugal terá vendido à Câmara Municipal de Lisboa algumas provas e negativos como colaborador entre 1947 e 1958, dando origem à coleção EDP com 2.528 negativos de gelatina e prata em suportes de vidro, nitrato de celulose, acetato de celulose e poliéster e algumas provas, e que se mantém separada do espólio posteriormente doado ao Arquivo Municipal de Lisboa.

Por ser organizado, metódico e excelente técnico também encontramos no espólio dezoito livros de registo com anotações, de 1925 e 1947, onde constam o modo de fotografar, o local, o dia e as condições de luz. Este material, recolhido no espólio do fotógrafo, doado em 1991, serviu para identificar as imagens, cruzar a informação de outros suportes (diários e manuscritos) de modo a convergir os negativos com as provas, que muitas se repetiam em diversas séries. Para organizar o espólio, a equipa do Arquivo Municipal precisou de um longo tempo para separar as imagens por suporte e tipologia, que teve início em 1995, num trabalho exaustivo e demorado.

O espólio também contém um conjunto de setenta e seis zincogravuras, vários objetos pessoais (lápis de cor, canetas, borrachas, aparos, etc.) e a biblioteca do autor.

Este espólio tem 15.916 imagens entre provas fotografias de gelatina e prata e negativos de gelatina e prata, em diversos suportes e um conjunto de 171 álbuns com fotografias de sua autoria, postais, caricaturas e fotografias de outros fotógrafos, havendo 3.824 imagens e 6 álbuns na Base disponível on-line  descritos abaixo: 

  • Álbum 6 - Contém 66 provas fotográficas em formato postal, em papel de revelação virado a sépia de Eduardo Portugal, efetuadas durante a viagem a sua viagem a França (1927?), mostrando aspetos de Paris, Versalhes, Lourdes, Biarritz, Bayone, incluindo vários autorretratos.
  • Álbum 26 - Inclui 188 fotografias de Lisboa, com reproduções referentes à distribuição de água, fontanários, chafarizes, aqueduto, Central de bombagem dos Barbadinhos, imagens de mercados e de distribuição de bens.
  • Álbum 36 - Com 268 fotografias, diurnas e noturnas, da Exposição do Mundo Português em 1940.
  • Álbum 43 - Com 58 desenhos a tinta-da-china em papel de aguarela, formato postal, com caricaturas de tipos populares, todos assinados por EDUGAL (topónimo de Eduardo com Portugal).
  • Álbum 49 - Com 90 fotografias de Eduardo Portugal, mostrando o cortejo histórico de 1947 na avenida da Liberdade, em Lisboa.
  • Álbum 118 - Guarda 78 fotografias de Eduardo Portugal, com retratos de senhoras. São provas em papel de revelação, de pequeno formato, legendadas pelo autor, datadas de 1919 a 1923.

Uma parte do espólio de Eduardo Portugal foi apresentado em exposição no âmbito da LisboaPhoto 2003, no Convento das Bernardas, de 6 de junho a 17 de agosto, tendo sido reposto no Arquivo Municipal de Lisboa/Fotográfico, dez anos depois, de 27 de junho a 31 de agosto de 2013. Em novembro de 2014, o Arquivo Municipal de Lisboa disponibilizou o catálogo digital das referidas exposições no seu site.

Com as mesmas imagens originais, mas com os objetos pessoais, os álbuns e a documentação diversificados, de modo a ilustrar todos os materiais do espólio, as duas exposições focaram o tema da cidade de Lisboa, deixando ainda muito por ver do espólio, que contém imagens de vários locais do país e da Europa.

O Arquivo Municipal de Lisboa/Fotográfico tem patente ao público a exposição mi.nús.cu.lo até 23 de janeiro de 2016, com um conjunto de retratos de pequenos formatos recolhidos ou fotografados por Eduardo Portugal, evidenciando claramente o seu olhar acutilante e contemporâneo e mais uma vez surpreendendo o público que a visita. Na edição Cadernos do Arquivo Municipal 2ª série, nº 4 também se poderá ler um contributo sobre outras representações fotográficas de Eduardo Portugal.


Exposição Eduardo Portugal, LisboaPhoto 2003, Convento das Bernardas 6 de junho a 17 de agosto de 2003

Exposição Eduardo Portugal, LisboaPhoto 2003, Convento das Bernardas
6 de junho a 17 de agosto de 2003



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