Vida e Obra

 
 
 




Biografia[Cartão de identidade de Cassiano Branco como arquiteto na câmara municipal de Oeiras com o nº 525] | Código de referência: PT/AMLSB/CB/12/05/02

Cassiano Branco nasceu em Lisboa a 13 de agosto de 1897, na rua do Telhal, junto aos Restauradores, no começo da avenida da Liberdade, para a qual desenhará alguns dos seus projetos mais emblemáticos.
Depois de iniciar o seu percurso de instrução primária em 1903 numa escola localizada entre as Escadinhas do Duque e a calçada da Glória e, posteriormente, em 1912, no liceu, na Escola Académica, Cassiano Branco matricula-se, pela primeira vez, em 1919, na Escola de Belas Artes de Lisboa (EBAL). Vai ser aqui que Cassiano Branco inicia o seu contacto com o ambiente artístico da época e onde se irá cruzar com uma geração de arquitetos determinante na renovação estilística da arquitetura portuguesa no segundo quartel do século XX.
Na EBAL, entre outros, Cassiano Branco travou conhecimento com Pardal Monteiro, Cristino da Silva, Cottineli Telmo, Carlos Ramos, Jorge Segurado, Paulino Montez, Veloso Reis Carmelo, Raúl Tojal e Adelino Nunes.

Cassiano Branco interrompe o curso na EBAL, desiludido com o ensino ultrapassado baseado no modelo francês, profundamente desatualizado em relação ao pensamento teórico e projetual vanguardista produzido em Itália, Reino Unido, Alemanha ou União Soviética, ingressando no Ensino Técnico-Industrial.
Conclui o curso de Arquitetura em 1926, com 29 anos, em que os sucessivos chumbos na cadeira de Desenho de Figura Humana e Ornato lhe atrasam o percurso em relação aos seus colegas mais proeminentes, como Pardal Monteiro ou Cottineli Telmo, não participando na primeira fase do moderno em Portugal.

Regressado da importante viagem a Paris, em 1925, onde esteve na Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels, Cassiano Branco inicia a atividade de arquiteto diplomado no ano seguinte. Todavia, a sua atividade projetual já começara em 1921 com uma proposta para o Mercado Municipal da Sertã, com um projeto para o edifício da Câmara Municipal da mesma vila beirã, em 1925, e outro, em 1927, para a residência dos magistrados dessa povoação, nos quais ainda se evidencia uma estilística de raiz clássica, reflexo da sua formação académica na Escola de Belas Artes de Lisboa.

Cinema Éden | Código de referência: PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/ACU/002476O primeiro projeto onde Cassiano Branco assume uma personalidade moderna data de 1928, na segunda proposta para o Stand Rios de Oliveira, no n.º 227 da avenida da Liberdade, desenvolvido em dois níveis cuja ligação era feita por elevador, uma novidade na época. Esta garagem, de estética vagamente Art Déco, infelizmente já demolida, encaixada entre dois prédios antigos, para recolha de automóveis, com uma cobertura de vidro de grandes dimensões, contrastava com a continuidade dos prédios de habitação neopombalinos.

Um ano mais tarde, em 1929, Cassiano Branco recebe a encomenda para intervir em duas salas de espetáculos: o Coliseu dos Recreios e o Éden-Teatro. No caso do Coliseu dos Recreios trata-se de um projeto de alterações a efetuar nos corredores, no palco e na cúpula. Já o trabalho a desenvolver no Éden-Teatro era bastante mais controverso e ambicioso, mormente a ampliação deste espaço, com o objetivo de tornar possível a exibição do cinema sonoro e a aumentar o número de espetadores.

Sendo possivelmente a obra mais emblemática de Cassiano Branco, e um dos marcos na arquitetura moderna portuguesa, o projeto do Éden-Teatro, que apenas foi inaugurado a 1 de abril de 1937 é, contudo, atribuído ao arquiteto Carlos Dias, seu colaborador, que o concluiu, e ao engenheiro civil Alberto Alves Gama, num percurso pródigo em polémica. Todavia, os elementos mais notáveis do Éden-Teatro encontram-se nas duas primeiras propostas de Cassiano Branco, que nunca reivindicou a sua autoria, pese esta ser unânime entre os estudiosos da sua obra.

Ainda numa fase inicial do seu vasto e multifacetado percurso, Cassiano Branco, com apenas 32 anos, apresentou em 1930 dois dos seus projetos mais ambiciosos e vanguardistas, cada um documentado numa única perspetiva e que nunca chegaram a passar do papel: o Plano da Costa da Caparica e a Cidade do Cinema Português, em Cascais, ambos a pedido de um grupo económico.

Pormenor da solução urbanística | 1930 | Código de referência: PT/AMLSB/CB/09/02/05Excluído das encomendas oficiais, a parte mais substancial da obra de Cassiano Branco provém do cliente particular e do construtor civil, maioritariamente através de encomendas de prédios de rendimento a integrar em malhas urbanas consolidadas, como sucedeu, na rua Nova de São Mamede, nº 17ª, de 1933; na rua da Artilharia Um, nº 18 e n.º 22, de 1934 e 1935; na avenida Ressano Garcia, nº 20, de 1934; nos quatro prédios na calçada do Desterro, com os nº 5, 7, 9 e 11, de 1934 e 1935; na avenida Álvares Cabral, nº 12 a 14, 13, 30 a 32, 34, 44 a 48 e 50 a 56, de 1935 e 1936; na avenida da República, nº 88, de 1935; e na avenida dos Defensores de Chaves, n.º 27, de 1937.
A partir de 1938, são raros os prédios em Lisboa assinados por Cassiano Branco. Esta diminuição também se explica por, a partir dessa data, ele estar ocupado com o projeto do Grande Hotel do Luso e o Coliseu do Porto, para lá do trabalho que já iniciara no Portugal dos Pequenitos, em 1937. Todavia, uma parte significativa das obras de Jacinto Bettencourt, que proliferam a partir de 1938, seriam, garantidamente, da sua autoria, executadas sob a sua orientação. Também o engenheiro Ávila Amaral, que nesta época apresentou inúmeros projetos, assinou alguns da autoria de Cassiano Branco.

Se os primeiros prédios urbanos modernos foram assinados por Cristino da Silva e Couto Martins, posteriormente, no segundo e terceiro quartéis do século XX, Cassiano Branco assume o papel de destaque sobretudo devido à grande quantidade de prédios de rendimento que projectou nos anos 30, contribuindo decisivamente para a popularização da arquitetura modernista.

Em 1933, Cassiano Branco projeta um conjunto de moradias para a avenida António José de Almeida, nos nº 10, 14, 16 e 24, e para o n.º 19 da rua Xavier Cordeiro, no bairro social do Arco do Cego, em Lisboa, da autoria de Edmundo Tavares. Estas moradias têm especial importância na obra de Cassiano Branco ao afirmar-se como o seu primeiro conjunto de estilística internacional, conceptualmente próxima da linguagem de Mallet-Stevens, Loos e Lurçat.

Em direção contrária, em 1934, Cassiano Branco projeta uma moradia de vertente nacionalista na avenida Óscar Monteiro Torres, nº 28/32, em Lisboa, para o arquiteto Norte Júnior, reflexo do gosto deste.
No mesmo sentido, podemos ainda apontar para o período de maior fulgor modernista em Cassiano Branco, outros dois exemplos de arquitetura tradicional portuguesa, de linguagem caraterística do Estado Novo, nomeadamente o Portugal dos Pequenitos, em Coimbra, inaugurado em 1940, a obra em que mais tempo esteve envolvido (1937 a 1962), e o projeto do Grande Hotel do Luso, de 1938. Se o primeiro caso se explica por ser um reflexo da vontade e gosto de Bissaya Barreto, médico, de personalidade fortemente tradicionalista e amigo íntimo de Salazar, o segundo deve-se a imposições da empresa que lhe encomendou a obra.

Regressando ao pródigo ano de 1933, Cassiano Branco projeta um quiosque-esplanada para o café Palladium, inaugurado no ano anterior, localizado ao cimo do Restauradores, onde se inicia a avenida da Liberdade. Este equipamento, infelizmente também já demolido, desenvolvia-se em torno de um pilar redondo, envolvido por uma estrutura de ferro e vidro e era composto por dois pisos. Aproxima-se esteticamente à cultura internacional, integrando-se no desejo de Cassiano Branco de transformar Lisboa, e particularmente esta artéria, para a qual projetou a esmagadora maioria dos seus trabalhos, numa grande metrópole moderna, plena de edifícios modernos, salas de espetáculos, cafés e outros espaços de ócio, feérica de luz e movimento, à imagem das principais cidades europeias.

Em 1934, Cassiano Branco apresenta o primeiro projeto para o hotel Vitória, localizado na avenida da Liberdade, no nº 168-170. Trata-se, não apenas, de uma das obras mais destacadas deste arquiteto, mas do modernismo português, afirmando-se como uma das mais marcantes da cidade de Lisboa neste período, e que lhe deu oportunidade de voltar a intervir na sua artéria fétiche, na interpretação desta como boulevard.
A proposta inicial entregue na Câmara Municipal de Lisboa para esta parcela de terreno não tinha como objetivo a construção de um hotel, mas de um edifício habitacional para substituir um em estilo Art Déco que lá existia, o que explica as semelhanças morfológicas com os prédios de rendimento. Só mais tarde é que o promotor da obra, Freire e Matos Lda., solicitou a adaptação do projeto inicial para a edificação de um hotel.
No ano seguinte, a pedido dos seus proprietários, Cassiano Branco apresentou um plano de ampliação do hotel Vitória para o lote contíguo a norte, que faria dele um dos maiores da capital, o que não se veio a concretizar.

Em 1936, Cassiano Branco projeta outra peça de mobiliário urbano de linhas modernas para a praça D. Pedro IV e para a praça dos Restauradores, que, à semelhança do quiosque-esplanada para o café Palladium, apresenta um pilar central e uma estrutura metálica, em forma de uma longa pala, com bastante vidro na superfície. Estes alpendres, que não chegaram a ser construídos, tinham como função proteger as pessoas que saiam dos teatros e cinemas dos elementos climatéricos, mas o que sobressai nele é a horizontalidade dinâmica de Mendelshon.

Portugal dos Pequenitos | [Alçado principal do pavilhão da Índia no pavilhão das Descobertas e Conquistas da secção Colonial] | Código de referência: PT/AMLSB/CB/01/03/01Em 1937, curiosamente no mesmo ano em que se inicia a construção do Portugal dos Pequenitos, em Coimbra, Cassiano Branco apresenta um dos seus mais extraordinários projetos afirmativos da modernidade da arquitetura portuguesa dos anos 30 do século XX, localizado no nº 87 da avenida Columbano Bordalo Pinheiro, em Lisboa, infelizmente demolida em 1969. Pela configuração cubista, trata-se de uma moradia com semelhanças com as que projetou para a avenida António José de Almeida e para o nº 19 da rua Xavier Cordeiro, sobressaindo, também aqui, a influência das moradias projetadas por Mallet-Stevens.

Finalmente, em 1939, o Coliseu do Porto, localizado no nº 137 da rua Passos Manuel, é a obra moderna com que Cassiano Branco encerra os extraordinários anos 30 do seu ciclo de produção moderna, constituindo uma obra de síntese, de grande maturidade estilística e plena modernidade.

Todavia, partir da Exposição do Mundo Português, em 1940, inicia-se uma nova fase, que atravessa os anos 40, visivelmente marcada pela falta de trabalho e de quase total abandono da arquitetura moderna de que no decénio anterior fora o expoente máximo em Portugal. Este período define-se abertamente pelos modelos de arquitetura do Estado Novo, com raras exceções de arquitetura moderna, como o Café Cristal, no n.º 145-153 da avenida da Liberdade, em 1942.

Nos anos 50, Cassiano Branco continuou a oscilar entre o "estilo português” e um ecletismo de diferentes inspirações, mas de resultados duvidosos. É deste período, 1950 e 1957, o projeto do hotel Infante de Sagres, na praia da Rocha, e a proposta de ampliação do edificio da sede da Junta Nacional do Vinho, em Lisboa, na rua Mouzinho da Silveira, n° 5-5A, que revelam um esforço de integração numa estilística moderna, que Cassiano Branco não soube acompanhar, tendo sido recusadas.

Na década de 60, Cassiano Branco elabora alguns projetos em que demonstra um último esforço de acompanhamento de uma arquitetura de influência internacional, como a segunda proposta de ampliação do edifício da sede da Junta Nacional do Vinho, em Lisboa; o posto fronteiriço de Galegos, em Marvão; o Grémio do Comércio dos Concelhos de Torres Vedras, Cadaval e Sobral de Monte Agraço; os estudos para um edifício na Rebelva, em Parede; o edifício para os Correios Telefones e Telégrafos, em Portimão, entre outros. Nenhum deles, todavia, acabou por ser construído. Pese os exemplos anteriores, a alternância entre um ecletismo de inspiração tradicional e de inspiração moderna fica mais uma vez assinalada no último projeto de Cassiano Branco, para o concurso público da agência de Évora, do Banco de Portugal, novamente reprovado, onde o moderno se disfarça com o antigo, afinal o derradeiro exemplo da ambiguidade que marca a sua obra a partir de 1940.

Projeto para a Agência do Banco de Portugal em Évora | 1965 | Código de referência: PT/AMLSB/CB/03/04/14Podemos concluir que a prolixa e diversificada obra de Cassiano Branco, de grande riqueza formal, desenvolvida entre meados dos anos 20 e o final da década de 1960, consagrou-o como um dos arquitetos que, mais indelevelmente marcou a primeira geração moderna. Embora não tenha feito parte do grupo de pioneiros do modernismo, é inegável a sua importância na história da arquitetura portuguesa, da primeira metade do século XX, tendo sido, seguramente, um dos mais conhecidos e estudados. O contexto histórico da sua vasta e notável obra, associado à sua personalidade, é indispensável, para compreender a complexidade de um percurso, muitas vezes polémico, que, iniciado no período pré-modernista da Primeira República, tendeu a ser interpretado à luz da Modernismo e do Português Suave. De facto, foi possível distinguir claramente na obra de Cassiano Branco duas fases distintas: a primeira, iniciada pouco depois de concluir a sua licenciatura, perdurou até finais dos anos 30 do século XX e caraterizou-se por projetos de extrema criatividade como o hotel Vitória e o Éden Teatro, que lhe conferiram reconhecimento como um dos mais importantes arquitetos modernos a nível nacional; na segunda fase, cujo início coincide com a Exposição do Mundo Português, em 1940, verifica-se uma profunda alteração de valores, de cedência e resignação da obra construída por Cassiano Branco ao estilo Arquitetura de Estado Novo, em que, fascinado pela história de Portugal, procura nesta a legitimação da sua arquitetura, que irá recriar no Portugal dos Pequenitos, em Coimbra, impedindo-o de expressar a matriz inovadora dos primeiros anos.

Cassiano Branco, que faleceu em Lisboa, a 24 de abril de 1970, e a sua obra, são, afinal, o paradigma das complexidades, hesitações e equívocos que marcaram a construção do modernismo em Portugal.

História custodial e arquivística

O arquivo particular do arquiteto Cassiano Branco foi adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa em 1990, encontrando-se atualmente à guarda do Arquivo Municipal de Lisboa, que o detém, em regime de usufruto e de propriedade jurídica.

Este espólio chegou ao Arquivo Municipal de Lisboa em maços e rolos (vegetais), nalguns casos acompanhados da lista descritiva do respetivo conteúdo, sendo que a ordem original se perdera, situação que, tanto quanto possível, foi corrigida. A classificação posterior foi feita a partir das tipologias arquitetónicas representadas, com o objetivo de estabelecer os diferentes projetos documentados e compreender a sua evolução.

Desta forma, a classificação é temática, encontrando-se as séries constituídas por cada um dos respetivos projetos individuais, que por sua vez englobam toda a documentação (escrita e iconográfica) respeitante ao mesmo projeto. Estes projetos são compostos não apenas por documentação de natureza arquitetónica, como planos, cortes ou alçados, mas também por toda aquela que, à partida, não o sendo, concorre para a mesma, como recortes de imprensa, fotografia, bilhetes-postais, correspondência, etc., que, dessa forma, se encontram agregados. A documentação de natureza privada e aquela com características técnico-científicas ou académicas foi considerada em secções distintas, constituindo-se, nestes casos, séries que respeitaram as diferentes tipologias documentais existentes.

O Fundo Cassiano Branco é constituído por quase 13.500 documentos, de que uma parte substancial, cerca de 9.350, são recortes e revistas que este arquiteto acumulou ao longo da vida. O espólio encontra-se acondicionado em 51 caixas, 183 pastas e 8 rolos, de acordo com as características de cada documento. Em termos de suportes, para lá de inúmeros processos fotográficos, a documentação apresenta-se em amocê, marion, metal, ozalide, papel, tela e vegetal. Encontra-se disponível à consulta presencialmente, em microfilme, e à distância, através da base de dados online, onde é possível aceder aos níveis do fundo, série, documento composto e documento simples, integralmente descritos, com as respetivas imagens associadas, sem restrições de acesso.

Entre a documentação que integra o Fundo Cassiano Branco destaca-se o projeto do Portugal dos Pequenitos, que foi objecto de uma publicação do Arquivo Municipal de Lisboa, em 2000, com o título Jardim Portugal dos Pequenitos, e está disponível para venda.

Tipologias de documentação existente no Arquivo Municipal de Lisboa
  • projetos de comércio e indústria;
  • concursos públicos e estruturas móveis;
  • projetos para arquitetura habitacional;
  • projetos para equipamentos de espetáculos, hidroelétricos e turísticos;
  • projetos para edifícios de utilização pública;
  • estudos e projetos de urbanismo;
  • estudos técnico-científicos;
  • documentação particular;
  • coleções de mapas, plantas, cartazes, recortes, revistas, fotografias e postais.
Data(s): 1871 a 1969

Código de referência: PT/AMLSB/CB

 

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