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Topografias imaginárias - 5.dez
2018-12-05 2018-12-05
AML | Videoteca
 
Storm over Lisbon, George Sherman (1944), 86'


Não são raros os filmes de espionagem dos anos 40, com produção inglesa e americana, que têm Lisboa como cenário. Aproveitando-se do posicionamento neutro de Portugal durante a II Guerra Mundial, Lisboa serviu nestes filmes como base de chegada, partida ou refúgio de personagens que vinham de ou desejavam ir para outro lugar. Lisboa era então uma espécie de "não-lugar” (e não apenas em termos de narrativa). É o que acontece neste filme, uma produção americana da Republic Pictures, que alguns consideram ser uma resposta ao Casablanca da Warner Brothers (onde Lisboa é só destino e desejo mas não aparece). Storm over Lisbon passa-se, ao contrário de Casablanca, em Lisboa. Mas, retirando alguns breves planos iniciais que são mesmo das pitorescas calçadas e do Rossio, a cidade aparece como uma miniatura construída dentro de um estúdio americano. Simulação e miniaturização são aqui palavras de ordem.

Vamos reconhecer traços e nomes de alguns lugares – o casino e o Estoril, o aeroporto marítimo de Cabo Ruivo, o "Tagus” – mas todos aparecem distorcidos, construídos de maneira a caber no espaço fechado do estúdio. Eric von Stronheim, actor, que é também um cineasta com uma relação tempestuosa com os estúdios americanos, participa (justamente) no filme como vilão a quem é indiferente vender informações aos países do eixo ou aliados. "Indiferente”, "neutro”: palavras também elas importantes para comentar a relação deste filme com o espaço.


Em simultâneo, nos postos individuais de visionamento
Lisboa no Cinema - um ponto de vista, Manuel Mozos (1996), 107’
Dans la Ville Blanche, Alain Tanner (1982), 101’
Lisbon Story (Viagem a Lisboa), Wim Wenders (1994), 100’


[Storm over Lisbon]

[Storm over Lisbon]

[Storm over Lisbon]






A cidade como estúdio

Várias divergências atravessam a história do cinema e dividem cineastas, mas talvez uma das mais decisivas seja a que diz respeito à relação com a realidade. A esse nível poderíamos talvez distribuir os cineastas por dois lados (salvaguardando uma enorme mancha cinzenta, cheia de tonalidades, entre os dois): aqueles que criam o seu programa formal a partir da realidade e aqueles que encaixam a realidade no seu programa formal. Este programa formal, e a relação entre cineasta e realidade que depreende, têm um nó: o plano.
De várias maneiras a teoria do cinema definiu o plano cinematográfico. Uma delas define-o como um contentor, um recipiente, que o cineasta instala e prepara para receber aquilo que filma.

Este 5º ciclo de visionamentos comentados começa por procurar explorar e analisar as operações que, num filme, são levadas a cabo para que o espaço real seja um espaço que cabe (nesse contentor ou recipiente). Mas essa investigação levantará inevitavelmente questões mais latas, relacionadas com a representação – que ações se operam num espaço (real) para o preparar para a representação (cinematográfica ou outra) – e relacionadas também com a cidade – quanto destas operações (de arrumação, limpeza, hierarquização) tem afinidades com as ações levadas a cabo no espaço urbano de Lisboa e que consequências têm estas nos modos da sua habitação.

Pensar ou olhar para a cidade como estúdio é ainda considerá-la como um espaço de trabalho que vai ser redimensionado, agenciado, para produzir um outro tipo de espaço que é o cinematográfico (sensorial/percetivo, imaginário e simbólico). A cidade é aí um instrumento e o suporte de uma outra cidade, a que se vê no ecrã e a que se recompõe no espaço mental do espectador graças ao filme.




 
Parceria
Arquiteturas



Uma parceria Arquivo Municipal de Lisboa - Videoteca / IFILNOVA - Instituto de Filosofia FCSH/NOVA - no âmbito do projecto Fragmentação e Reconfiguração: a experiência da cidade entre arte e filosofia (PTDC/FER-FIL/32042/2017)​

 

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