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Topografias imaginárias - 7.dez
2018-12-07 2018-12-07
AML | Videoteca
 
Brandos Costumes, Alberto Seixas Santos (1975), 75'

Lisboa aparece aqui como ameaça. Todo o filme se passa dentro de uma casa de onde, de vez em quando, se espreita furtivamente para fora, e todos os planos efetivamente do exterior são retirados de filmes de propaganda e atualidades – imagens de grandes manifestações pró-regime de Salazar onde se pode observar uma particular, monumental, organização do espaço público. Se por um lado Brandos Costumes trabalha de modo acutilante sobre o universo (pequeno) da casa e da família burguesa durante o Estado Novo, a entrada do exterior no filme torna-o uma reflexão sobre um regime: Lisboa aparece aqui como um estúdio gigantesco e os seus habitantes como figurantes de um espetáculo monstruoso. (José Neves disse estar convencido de que este é filme de terror…).

BRANDOS COSTUMES tem ainda um lugar particular na história do cinema português: foi filmado antes da revolução, acabado logo depois (o que faz dele uma espécie de prenúncio), e a interioridade que o domina pode ser considerada um comentário ao próprio cinema do regime (um cinema de estúdio).


Em simultâneo, nos postos individuais de visionamento
Benilde o a Virgem Mãe, Manoel de Oliveira (1975), 112’
Que farei eu com esta espada?, João César Monteiro (1975), 65’
As Armas e o Povo, Sindicato dos Trabalhadores da Produção de Cinema (1975), 78’


[Brandos Costumes]

[Brandos Costumes]

[Brandos Costumes]






A cidade como estúdio

Várias divergências atravessam a história do cinema e dividem cineastas, mas talvez uma das mais decisivas seja a que diz respeito à relação com a realidade. A esse nível poderíamos talvez distribuir os cineastas por dois lados (salvaguardando uma enorme mancha cinzenta, cheia de tonalidades, entre os dois): aqueles que criam o seu programa formal a partir da realidade e aqueles que encaixam a realidade no seu programa formal. Este programa formal, e a relação entre cineasta e realidade que depreende, têm um nó: o plano.
De várias maneiras a teoria do cinema definiu o plano cinematográfico. Uma delas define-o como um contentor, um recipiente, que o cineasta instala e prepara para receber aquilo que filma.

Este 5º ciclo de visionamentos comentados começa por procurar explorar e analisar as operações que, num filme, são levadas a cabo para que o espaço real seja um espaço que cabe (nesse contentor ou recipiente). Mas essa investigação levantará inevitavelmente questões mais latas, relacionadas com a representação – que ações se operam num espaço (real) para o preparar para a representação (cinematográfica ou outra) – e relacionadas também com a cidade – quanto destas operações (de arrumação, limpeza, hierarquização) tem afinidades com as ações levadas a cabo no espaço urbano de Lisboa e que consequências têm estas nos modos da sua habitação.

Pensar ou olhar para a cidade como estúdio é ainda considerá-la como um espaço de trabalho que vai ser redimensionado, agenciado, para produzir um outro tipo de espaço que é o cinematográfico (sensorial/percetivo, imaginário e simbólico). A cidade é aí um instrumento e o suporte de uma outra cidade, a que se vê no ecrã e a que se recompõe no espaço mental do espectador graças ao filme.



 
Parceria
Arquiteturas

 

Uma parceria Arquivo Municipal de Lisboa - Videoteca / IFILNOVA - Instituto de Filosofia FCSH/NOVA- no âmbito do projecto Fragmentação e Reconfiguração: a experiência da cidade entre arte e filosofia (PTDC/FER-FIL/32042/2017)​

 

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