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Topografias imaginárias - 8.dez
2018-12-08 2018-12-08
AML | Videoteca
 
O Bobo, José Álvaro de Morais (1987), 127'

Comentado por:
João Sousa Cardoso 
Ricardo Gross 
Susana Ventura 

Literal é uma palavra-chave para a integração deste filme num ciclo que anda à volta da ideia do estúdio: não só grande parte do filme se passa num estúdio, aliás um estúdio incontornável para a história do cinema português, o estúdio da Tobis, onde uma das personagens está a montar a apresentação de uma versão teatral do romance histórico O Bobo, de Alexandre Herculano; como a própria cidade aparece como espaço de trabalho de uma equipa de cinema (aliás o filme integra e joga com várias artes, e imagens de diferentes naturezas – filmes projetados no palco, estúdio cinematográfico como palco…).

O BOBO permite abordar a dimensão mais laboratorial da noção de estúdio, porque ele próprio é um laboratório, uma oficina onde, de modo fragmentado e experimental, se expõe e pensa o próprio mecanismo cinematográfico na relação com os espaços da cidade (a certa altura, por exemplo, usa-se um velho cenário de um dos filmes feitos na Tobis em que Lisboa era pintada em tela). Não é então por acaso que se vai repetindo ao longo do filme a frase retirada de um fado: "Lisboa só existe porque nós a inventamos de cada vez que pensamos um no outro”. Ou que o plano final seja o da ponte 25 de Abril apertada entre duas paredes (enquanto em off se ouve justamente e mais uma vez essa frase).


Em simultâneo, nos postos individuais de visionamento
Ninguém duas vezes, Jorge Silva Melo (1985), 107’
Silvestre, João César Monteiro (1981), 118’
O meu caso, Manoel de Oliveira (1986), 88’


[O Bobo]

[ Bobo]

[O Bobo]






A cidade como estúdio

Várias divergências atravessam a história do cinema e dividem cineastas, mas talvez uma das mais decisivas seja a que diz respeito à relação com a realidade. A esse nível poderíamos talvez distribuir os cineastas por dois lados (salvaguardando uma enorme mancha cinzenta, cheia de tonalidades, entre os dois): aqueles que criam o seu programa formal a partir da realidade e aqueles que encaixam a realidade no seu programa formal. Este programa formal, e a relação entre cineasta e realidade que depreende, têm um nó: o plano.
De várias maneiras a teoria do cinema definiu o plano cinematográfico. Uma delas define-o como um contentor, um recipiente, que o cineasta instala e prepara para receber aquilo que filma.

Este 5º ciclo de visionamentos comentados começa por procurar explorar e analisar as operações que, num filme, são levadas a cabo para que o espaço real seja um espaço que cabe (nesse contentor ou recipiente). Mas essa investigação levantará inevitavelmente questões mais latas, relacionadas com a representação – que ações se operam num espaço (real) para o preparar para a representação (cinematográfica ou outra) – e relacionadas também com a cidade – quanto destas operações (de arrumação, limpeza, hierarquização) tem afinidades com as ações levadas a cabo no espaço urbano de Lisboa e que consequências têm estas nos modos da sua habitação.

Pensar ou olhar para a cidade como estúdio é ainda considerá-la como um espaço de trabalho que vai ser redimensionado, agenciado, para produzir um outro tipo de espaço que é o cinematográfico (sensorial/percetivo, imaginário e simbólico). A cidade é aí um instrumento e o suporte de uma outra cidade, a que se vê no ecrã e a que se recompõe no espaço mental do espectador graças ao filme.



 
Parceria
Arquiteturas



Uma parceria Arquivo Municipal de Lisboa - Videoteca / IFILNOVA - Instituto de Filosofia FCSH/NOVA - no âmbito do projecto Fragmentação e Reconfiguração: a experiência da cidade entre arte e filosofia (PTDC/FER-FIL/32042/2017)​
 


 

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