Corte de Cabelo, Joaquim Sapinho (1995), 94'
O filme começa e acaba nas Amoreiras dos anos 90. É aqui que o imaginário de uma Lisboa cosmopolita e de uma urbanidade plena ganha o seu centro. No entanto, entre o início e o fim do filme, o espaço é projetado para fora dessa centralidade onde as margens da cidade aparecem como um destino provisório. Em permanentes gestos de rutura e conflito, as personagens circulam impelidas pela incerteza e pela desorientação de quem não pertence a lugar nenhum: "Para que lado é que fica o rio?" "E as Amoreiras, para onde é que é?" É nesta turbulência que se movem e se procuram, confrontando-se consigo próprias apenas quando param e olham os seus reflexos, quando filmam e são filmadas, numa multiplicação do olhar que busca uma identidade difícil de reconhecer.
Depois de num primeiro ano o ciclo TOPOGRAFIAS IMAGINÁRIAS ter descrito um percurso tanto temporal como espacial pela cidade de Lisboa, fazendo uma história do traçado da cidade tal como tem sido imaginado pelo cinema, e de na segunda edição se ter feito uma viagem pelo seu interior: como é que os espaços interiores foram captados pelo cinema e que papel têm eles nos filmes que os integram?, neste terceiro e último ciclo dedicado à "Arquitetura" veremos a cidade dos programas anteriores a ser deixada para trás: já não se verá uma cidade na melancolia da transformação (como no primeiro ciclo), nem propriamente uma cidade imaginada a partir de um interior (como no segundo), será vista uma cidade a extravasar os seus limites, ou a transbordá-los, para usar já uma imagem aquática – à deriva, é uma boa palavra para falar destes filmes. Avançamos então para uma Lisboa reinventada a partir das suas margens... Uma co-programação Arquivo Municipal de Lisboa - Videoteca / Arquiteturas Film Festival (Alexandra Areia e Inês Monteiro) |