Histórias de um amor

 
 
 

HISTÓRIAS DE UM AMOR

Sinopse

"Acabas agora de fazer oitenta e dois anos. És ainda bela, graciosa e desejável. Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos e amo-te mais do que nunca. Recentemente reenamorei-me de ti uma vez mais e trago de novo em mim um vazio devorador que só o teu corpo apertado contra o meu apazigua. À noite vejo por vezes a silhueta de um homem que segue um carro funerário, numa estrada vazia e numa paisagem deserta. Esse homem sou eu. O enterro é o teu. Não quero assistir à tua cremação; não quero receber um frasco com as tuas cinzas. Ouço a voz de Kathleen Ferrier que canta: Die Welt ist leer; Ich will nicht leben mehr. E acordo. Vigio a tua respiração, a minha mão aflora-te. Cada um de nós gostaria de não sobreviver à morte do outro. Muitas vezes dissemos um ao outro que, no caso impossível de termos uma segunda vida, quereríamos passá-la juntos.”
Assim terminou André Gorz a sua carta a D.

Leio-a junto a um rio de corrente verde, peixes que se multiplicam e aragem quente a passar entre os dedos dos pés.
Entro no rio, os peixes picam.

Vêm-me aos olhos imagens emprestadas, narrativas intransmissíveis, um pequeno pássaro que quase parte um ramo de árvore. E alguns aviões sincronizados. Vêm-me aos olhos a tua morte e a minha, vêm-me aos olhos como será ver-nos de fora, hoje a água está mais clara e o fundo próximo talvez ajude qualquer coisa a brilhar.

Vigio a minha respiração. Não há outra mão nem qualquer flor.
Projecto-me no "daqui a muitos anos”: como saberei, então, falar desta tarde, deste rio? O que sobreviverá desta carta em mim? Como não perder nunca esta aragem quente, o gancho do cabelo solta-se, esta vida apenas? Como acabar de fazer oitenta e dois anos? E as silhuetas dos homens? A tua morte? A tua morte?

Lembro-me de outra frase da carta que acabo de ler: "Para ti, que dando-me Tu, deste-me Eu.” Não sei se entendo. Mas acho tão bonito. Quero sabê-la de cor, não esquecer nunca. Repeti-la-ei até ao sol se pôr.

E, então, vem-me aos olhos o rosto comprido de uma grande amiga, tão terno, dizendo: "Partiu-se tudo, mas revelou-se um coração”.
E eu nunca hei-de receber um frasco com as tuas cinzas.

Sofia Dinger
*A autora não escreve segundo o Acordo Ortográfico

CONCEÇÃO E INTERPRETAÇÃO Sofia Dinger
LUZ Daniel Worm
AGRADECIMENTOS Ana Dinger, António Duarte, Clara Dinger, João Ferro Martins, Gonçalo Alegria, Luisa Crick, Tiago Oliveira
LOCAL Espaço Alkantara
DURAÇÃO 25 minutos
LOTAÇÃO 40 lugares
HORÁRIOS sexta 21h00 | sábado 18h30 | domingo 19h15
ENTRADA GRATUITA mediante levantamento de senha no local, 30 minutos antes do início da sessão. Máximo 2 senhas por pessoa, no limite dos lugares disponíveis.



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