Texto curatorial

 
 
 







Esta exposição pretende dar a conhecer o trabalho de Dom Julio Cordero, desenvolvido na primeira metade do século XX, na cidade de La Paz, a capital da tão desconhecida e apaixonante Bolívia. Através desta seleção de pequenas fotografias de época, é possível estabelecer um primeiro contacto com uma das referências da imagem fotográfica latino-americana. O estudo deste grande fotógrafo é relevante tanto pelas contribuições estéticas como pelo seu conteúdo documental.
[Reina del mas allá] (Rainha do Além) | Julio Cordero | 1910

Agora terá chegado, possivelmente, o momento de reformular a verdadeira história da fotografia latino-americana a partir do entendimento da diversidade como elemento principal e da integração das áreas periféricas como elemento essencial. Como é possível que existam tantas histórias da fotografia latino-americana e em todas se ignorem os fotógrafos bolivianos? – Esta lacuna não foi produzida pela ausência, mas pelo desconhecimento da obra dos fotógrafos que têm trabalhado nas principais cidades da Bolívia. A história da fotografia latino-americana que conhecemos baseia-se em poucos elementos e não explora a diversidade de projetos das complexas sociedades do último século e meio.

Esta exposição é uma pequena aproximação ao mundo imenso e complexo de imagens que existem ainda guardadas no "Archivo Cordero” de La Paz e que, neste momento, se encontram numa fase de estudo. Abre-se uma porta que nos aproxima da história de um país belo e riquíssimo em valores humanos; um país constantemente em busca de um lugar possível num mundo competitivo e devastador, ao qual não parece pertencer.

A Bolívia, como tantos outros países que estão incluídos no terceiro mundo, abre-se ao novo século com os mesmos problemas endémicos com que abandonou o anterior, mas com a esperança de encontrar um espaço, no qual possa viver e se desenvolver com a dignidade merecida por todos os povos.

[Nuestra venganza es ser felizes] | [A nossa vingança é sermos felizes] | Julio Cordero | 1910-1920

Através destes retratos, da firmeza e da temperança com que tantas pessoas posam diante da câmara de Dom Julio Cordero, pode-se realizar um percurso pelo passado através da história quotidiana deste povo: casais de namorados, famílias completas, colégios, casamentos, reuniões familiares, celebrações campestres, documentos policiais, registos militares e, sobretudo, rostos que olham, em muitos casos, pela primeira vez, para uma câmara que regista para o futuro, para o qual eles serão sempre o passado.

Com estas poucas cenas fotográficas é fácil construir uma ideia da sociedade boliviana do princípio do século XX e observar as contradições em que se encontrava. A Bolívia é um país onde convivem duas culturas radicalmente diferentes: a ocidentalizada, proveniente da sua herança europeia, com valores centrados no cristianismo e no capitalismo, e a multicultural indígena com a sua comum Pachamana que está presente como em nenhum outro lugar do continente americano e luta para não sucumbir à esmagadora força da economia global.

As legendas das fotografias foram solicitadas pelo dono da coleção, Rafael Doctor, à escritora e ativista anarco-feminista boliviana Maria Galindo, que fez uma re-leitura poética de cada uma delas, carregada de grande ironia e crítica social.

Miguel López Pelegrin


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