Abril 2019

 
 
 


Café Monte Carlo | Data: [197-] | Código de referência: PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/VAQ/000362



Cafés da Revolução: 

o Monte Carlo


Monte Carlo: «os novos espaços de liberdade que se abriram nessa noite valem bem todos os cafés do mundo que perdemos»!1

Código de referência:
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/VAQ/000362
Data: [197-]
Título: Café Monte Carlo

«Ao olharmos para uma fotografia antiga do interior de um café, dos pormenores da sua fachada ou da sua frequência, pouco ou nada saberemos ver do que lá esteve. […] Atesta um aspecto incapaz de projectar a sua própria leitura neutra pois, para lá do que ali vemos, existe o que aquilo foi. Num tempo com outras motivações, outros hábitos, outros contextos estéticos, a imagem que resta mostra apenas o óbvio, ou o que hoje se nos afigura como tal. O mais que lá está – e esse mais é quase tudo – implica leitura atenta de cada palavra sobre os cafés escrita. […] Mesmo que hoje se nos afigurem meros cenários com adereços datados, os cafés foram, na Lisboa de outrora, uma espécie de Olimpo sempre desejado, aberto a alguns eleitos.»2

No resto da Europa, a partir do século XVII, os botequins começaram a aparecer tendo-se generalizado ao longo do século seguinte. O mesmo aconteceu em Portugal onde, ainda antes do Terramoto de 1755, existiam alguns botequins na Baixa de Lisboa. Mas será, sobretudo, com as reformas do marquês de Pombal, seu frequentador assíduo, que os cafés ganhariam outro cariz.3 As tabernas, cafés, etc., transformaram-se em «centros sociais», já então abertos desde a alvorada até às duas horas da manhã. Eram «locais de convívio e sociabilidade»4, de
encontro e desencontro, onde se discutiam temas literários e políticos, onde se conspirava. Por esta razão, desde cedo, foram alvo de apertada vigilância pelas autoridades, como aconteceu no tempo do Pina Manique que «enviava espiões com o fito de saberem quem eram os simpatizantes das novas ideias francesas»5, e, mais tarde, no período do Estado Novo, os informadores da PIDE eram frequentadores habituais: o «dono do Botequim do Grego foi preso, no início do século XIX, por jacobinismo. Em 1959, o Café Chave d’Ouro encerrou portas após ter abrigado uma conferência de Imprensa na campanha eleitoral de Humberto Delgado»6. Todavia, tais medidas repressivas não foram suficientes de modo a impedir a continuidade das discussões políticas, dos encontros clandestinos conspirativos naqueles que Goethe definiu como «uma espécie de clube democrático»7.

Neste pequeno texto, procuraremos «reencontrar as antigas sensações voltando a franquear a porta» de um desses «deslumbrantes cafés»8
, o Monte Carlo (ou Montecarlo), assinalando assim os 45 anos da Revolução de 25 de Abril de 1974, não esquecendo os que, durante os quase 50 anos de ditadura, viveram na clandestinidade, lutaram, foram presos e torturados, perderam a vida, para nos darem novos espaços de liberdade.

Em março de 1953, a Câmara Municipal de Lisboa aprovava as obras de remodelação no Café Monte Carlo, solicitadas pela firma S. N. Silva & Silva (mais tarde propriedade da Cafeeira, Lda.), na Avenida Fontes Pereira de Melo, n.º 49C (antigos 41C e 41D)9. Envolvendo uma área de cerca de 767m2, o Monte Carlo estava dividido em zonas distintas: o r/c destinava-se a pastelaria, que servia cafés e bolos variados para serem «tomados rapidamente e em pé»; a casa de chá (restaurante) que disponibilizava o «famoso» bife à Montecarlo, o café, o snack-bar (até 1979 ocupado por bilhares), a barbearia e a tabacaria, ricamente servida por jornais e revistas, nacionais e estrangeiros; a cave estava reservada aos serviços. O Monte Carlo procurava corresponder ao variado tipo de clientes que a si recorria a diferentes horas, desde a manhã «até às duas da matina, hora de fecho, menos para quem fosse mesmo da casa, podia estar mais um bocado»10.

O porteiro fardado abria a porta onde «coabitavam já mundos muito diversos, da tertúlia neo-realista à marginalidade sexual, do vário jornalismo a um certo bas-fond, confinado este à área do dominó protegido pelos bilhares»11. Mas não só. Era no Monte Carlo que se juntavam «os surrealistas vindos da Baixa, quer a tertúlia (do Martinho [encerrado em 1968]) de José Gomes Ferreira, quer muitos estudantes que "prolongavam” a Cidade Universitária até ao Saldanha»12. «Ia lá toda a gente, cabiam lá todos: escritores e jornalistas, actores e cantores, gente do regime e da oposição, excêntricos e malucos, trabalhadores e calaceiros, "donjuans” […], solitários e tribos em peso, e os clientes anónimos, quotidianos, sem história»13.

A gente da oposição era muita. Dos maoístas aos católicos, do movimento académico aos movimentos militares. Sim, também estes se juntavam no Monte Carlo, sobretudo, os milicianos14. E eram eles, outrossim, que desde o início da década de 1970 punham em causa a legitimidade da guerra colonial, cujas ideias provinham já do «ambiente universitário e pré-universitário»15. Como o António «que sabíamos ligado ao "Partido” ainda antes das lutas de 69 em Coimbra [que reportava os] eventos heroicos das "massas”», e que, ainda que alguns não correspondessem à realidade, eram lidos «à luz da matriz de esperança que à época pintava qualquer buliço castrense, com que a rapaziada à roda do PCP ia alimentando a perpétua madrugada dos amanhãs que por cá tardavam em cantar.»16 No dia 24 de Abril de 1974, o amanhã chegou, às dez e meia da noite: «com o António Reis e mais três ou quatro pessoas encontrámo-nos no Monte Carlo (de saudosa memória), […] e saímos para a EPAM [Escola Prática de Administração Militar]17», para fazer a Revolução.

O Monte Carlo encerrou em 1992, dando lugar a uma conhecida loja de roupa.

Encontre este e outros documentos na base de dados do Arquivo, utilizando as palavras-chave de pesquisa: café; 25 de abril 1974; José Neves Águas; Revolução; propaganda; política.





 

1 ALBERTO, COSTA, Francisco Seixas da – «Vésperas de Abril». In Revista Camões, n.º 5, p. 44.

2  DIAS, Marina Tavares – Os cafés de Lisboa. Coimbra: Quimera, 1999. p. 6.

3  SUCENA, Eduardo - «Os Cafés na Vida Política, Social e Intelectual de Lisboa». In OLISIPO-Boletim do Grupo de Amigos de Lisboa. N.ºs 150-151-152, Anos 1987-1988-1989. p. 83-97.

4  LOUSADA, Maria Alexandre – «A rua, a taberna e o salão: elementos para uma geografia histórica das sociabilidades lisboetas nos finais do Antigo Regime». VENTURA, Maria da Graça Mateus (coord.) – Os espaços de sociabilidade na Ibero-América (sécs. XVI-XIX). Lisboa: Ed. Colibri, p. 95-120. Disp. online aqui [cons. 13-02-2019], p. 2, 6.

Idem, p. 15.

6  DIAS, Marina Tavares – Op. Cit., 1999. p. 9.

7 Cit. Idem, p. 8.

8 Idem, p. 6.

9 AML/Processo obra n.º 4155, Vol. 3/Proc. 9968/1953, folha 7. O texto relativo às obras de remodelação solicitadas pelo proprietário parece indicar que o estabelecimento já existia, antes das referidas obras. Contudo, pode referir-se à Pastelaria Fradique, propriedade da firma Nunes Barreiros e Castro, Lda., que parece ter aberto ao público em 1947. Em 1950 a loja estava encerrada.

10 AML/Processo n.º 228/1980, folhas 2-4; Eurico de Barros «A catedral onde até se podia cortar o cabelo». Diário de Notícias, 09-06-2007.

11 COSTA, Francisco Seixas da – Op. Cit., p. 44.

12 DIAS, Marina Tavares – Op. Cit, p. 104.

13 Eurico de Barros – Op. Cit.
Entre outros, Pedro Gonçalves e Francisco Seixas da Costa que frequentavam a Escola Prática de Administração Militar. Cf. entrevista ao ex-alferes miliciano Pedro Gonçalves, efectuada por Sandra Cunha Pires, em 27 de junho de 2018, no ISCTE-IUL, em Lisboa, editada por Ana Mouta Faria; COSTA, Francisco Seixas da – Op. Cit., p. 44.

15 FARIA, Ana Mouta – «A génese do Movimento das Forças Armadas nas colónias portuguesas da África». In FARIA, Ana Mouta e MARTINS, Jorge (org.) – Vozes de Abril na Descolonização. Lisboa: CEHC-IUL, 2014. p. 16.

16 COSTA, Francisco Seixas da – Op. Cit., p. 39.

17 Entrevista ao ex-alferes miliciano Pedro Gonçalves, Op. Cit.
 


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