Abril 2020

 
 
 

Cassiano Branco: uma obra para o futuro


Título: Cassiano Branco: uma obra para o futuro
Data: 1991
Código de referência: PT/AMLSB/CMLSBAH/ODAS/004/000217

O documentário Cassiano Branco: uma obra para o futuro, produzido em 1992 pela Videoteca Municipal de Lisboa e realizado pela Federação Portuguesa de Cinema e Audiovisuais, assume particular significado considerando a evocação dos 50 anos da morte deste arquiteto (1970-2020) e o conjunto de iniciativas que o Arquivo Municipal de Lisboa (AML), detentor do seu espólio, tem programado para comemorar esta iniciativa, no decurso do presente ano.

A sua importância resulta do facto deste registo fílmico retratar a vida e a obra do arquiteto Cassiano Branco, e visitar a exposição Cassiano Branco e o Eden, organizada pelo AML e inaugurada nesta cidade a 13 de novembro de 1991, no Cine-Teatro Eden, espaço icónico da capital.

Com a duração de 86 minutos, o documentário constitui um registo indissociável do livro Cassiano Branco, uma obra para o futuro, da autoria do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa (CML), publicado em 1991 pelas Edições ASA. De facto, o texto do documentário foi baseado em excertos do livro, a que se associaram pequenos vídeos, imagens da exposição e do colóquio, e entrevistas ao público sobre o futuro do Cine-Teatro Eden, onde decorreram as referidas iniciativas.

O documentário, organizado em quatro partes, inicia-se com uma breve introdução sobre a obra de Cassiano Branco, onde são salientados alguns dos seus principais projetos em Lisboa, no Porto e em Coimbra, com especial destaque para as dezenas de prédios distribuídos pela capital do país.

De seguida, é revelado todo o processo entre a aquisição do espólio do arquiteto e a montagem da exposição no Eden. Na origem desta exposição esteve a aquisição, à família de Cassiano Branco, por parte do Município de Lisboa, do seu espólio documental, no início de 1991, e o posterior estudo, inventário, tratamento, reprodução fotográfica e divulgação do mesmo. Este acervo é de grande significado para a compreensão da vasta e eclética obra de Cassiano Branco, desenvolvida entre meados dos anos 1920 e o final da década de 1960, que o afirmou como um dos arquitetos que mais indelevelmente marcam não só a primeira geração moderna, mas a história da arquitetura portuguesa nos segundo e terceiro quartéis do século XX.

Na exposição, constituída por núcleos que revelam a obra completa de Cassiano como nunca fora apresentada, o visitante tem a oportunidade de tomar contacto com um Eden secreto e visões d’O Outro Eden (pelo olhar de diversos artistas), com a cronologia dos feitos mais importantes e das mentalidades internacionais que atravessaram o século XX, assim como com um balanço da arquitetura nacional e além-fonteiras da época.

A segunda parte, a maior deste documentário, procura dar a conhecer o arquiteto e a personalidade. Assim, o espetador recua a 15 de agosto de 1897, data em que nasceu, acompanhando o seu percurso pessoal, académico e profissional, com o contexto nacional e internacional como pano de fundo, até ao seu falecimento, a 24 de abril de 1970.

A terceira parte deste documentário é dedicada ao Cine-Teatro Eden. Retrocede-se, assim, a 1913, ano em que se começa a ouvir falar de uma casa de espetáculos com o nome Eden Teatro, que seria construída na praça dos Restauradores, até ao seu encerramento, a 31 de dezembro de 1989; à sua transformação em salão de animatógrafo, em 1918, e ao seu fecho, no final de 1928, devido às precárias condições de segurança; à sua posterior demolição, e à inauguração, a 1 de abril de 1937. Nesta viagem destaca-se, naturalmente, o contributo fundamental de Cassiano Branco para esta obra emblemática de Lisboa, mas também os diversos espaços que a compõem, como as escadarias centrais e laterais, os foyers, a plateia, os camarotes de lado e de frente, o balcão de luxo e um outro de segunda ordem, o palco, a sala de espetáculos, com 1600 lugares, a cabine de projeção, mas também do Eden secreto, reservado ao conde Sucena, o proprietário do espaço à data da sua construção, um compartimento com privacidade absoluta neste edifício.

Esta parte do documentário compreende um segundo momento, designado O Outro Eden, referente ao núcleo da exposição composto por outras perspetivas deste edifício, que apresenta trabalhos de um poeta (textos de Mário Cesariny), de um fotógrafo (fotografias de Daniel Blaufuks, produzidas numa última visita a este espaço), de um cineasta (Wim Wenders, com uma cena do filme Until the end of the world, rodada no hall do Eden) e de um autor de banda desenhada (uma ficção de Enki Christin, que decorre em Lisboa, e também no Eden), que encontraram na arquitetura desta sala de espetáculos elementos de inspiração para as suas obras.

A quarta e última parte do documentário resulta da eminente destruição do interior do Eden, que se verificará alguns meses depois da realização da exposição, provocando um movimento de opinião e intenso debate sobre o futuro deste edifício. Responsáveis políticos, como o então presidente da CML, Jorge Sampaio, e o respetivo vereador da Cultura, João Soares, que abriram o debate do colóquio, foram questionados por muitos, dos conferencistas ao público, sobre o futuro do Eden, a utilização que o espaço poderia vir a ter – um hotel, um edifício de escritórios, uma grande casa de espetáculos? – e a possibilidade de salvar o imóvel.

Como assinalado, este documentário apresenta diversas entrevistas, que se podem agrupar em quatro conjuntos e que atravessam as partes supraindicadas.

O primeiro, constituído por individualidades que estiveram ligadas à montagem da exposição, como, entre outros, Maria do Rosário Santos Bonneville, à época chefe da Divisão de Arquivos da CML, Elísio Summavielle, então chefe da Divisão do Património da CML, e Henrique Cayatte responsável pelo design da exposição.

O segundo conjunto afirma-se com o depoimento do arquiteto Troufa Real, que privou com Cassiano Branco, e que nos revela aspetos mais intimistas da personalidade e da vida deste, como a sua faceta notívaga, mas também da sua ligação ao mundo da construção civil, os Tomarenses ou patos bravos, e da importância que tiveram para Lisboa e para Portugal.

O terceiro evidencia-se com o testemunho de Eugénio Salvador, uma das figuras maiores do teatro português e um notável dançarino, esta última faceta conhecida do grande público a partir da dupla que formou com Lina Duval, e que se exibia nos intervalos das sessões de filmes duplos no Cinema Eden, nos chamados "complementos vivos”.
Um quarto grupo integra inúmeros depoimentos de cidadãos anónimos, ao longo do documentário, recolhidos durante a exposição Cassiano Branco e o Eden.

Para lá destas pequenas entrevistas, o documentário apresenta momentos do caloroso debate que se verificou no colóquio que decorreu no Eden, recuperando intervenções de Tomás Taveira, Francisco Silva Dias, Pedro Vieira de Almeida, Manuel Graça Dias, Paulo Varela Gomes e José Manuel Fernandes.

O documentário termina com a premonitória dúvida, se do Eden não sabemos se ficará apenas a memória, e uma citação de Cassiano Branco:
"… O Homem é um ser leviano
Só se sente bem sonhando”.

Este documentário encontra-se disponível no Arquivo Municipal de Lisboa/Videoteca, no suporte de fita magnética - formato VHS, disco óptico - DVD e ficheiro digital, (formatos MP4 e formato MOV).



Paulo Jorge dos Mártires Batista
Arquivo Municipal de Lisboa



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