De criação pombalina, o Passeio Público foi o primeiro jardim público de Lisboa. Projetado segundo o risco do arquiteto Reinaldo Manuel dos Santos e muito apreciado pelos lisboetas - sobretudo pela burguesia em meados do século XIX, viria a ser demolido em 1879 na sequência da construção da Avenida da Liberdade. No dia 24 de agosto de 2019 assinalam-se 140 anos do seu desaparecimento.
A sua construção teve início em 1764 após ter sido delineado o traçado para o espaço das terras alagadiças de Vale Verde1 por ordem do então presidente do Senado da Câmara, Paulo de Carvalho e Mendonça e do seu irmão Sebastião José de Carvalho e Melo, conde de Oeiras e Marquês de Pombal. Foi dada por concluída entre 1773 e 1777. Numa primeira fase era um simples jardim murado, com portões em madeira, constituído por um bosque e decorado com vasos e estátuas, não se evidenciando ainda equipamento destinado a lazer. Mais tarde, foi construída uma cascata que rematava o fecho norte, inaugurada em 1840, que se tornou um dos ex-libris deste espaço, quer pela sua ampla dimensão e construção em três arcos, como pela rica decoração em pedra cuja estátua central representava a deusa Anfitrite ladeada por dois cisnes, numa composição cénica entre a água e a arte. Encimando a cascata havia um miradouro do qual se avistavam todo o jardim, a baixa da cidade e o Tejo.
Após 1835, sob o traçado do arquiteto Malaquias Ferreira Leal, o Passeio Público foi renovado e expandido: o muro alto deu lugar a um mais baixo, de cantaria, com grades de ferro encimadas por setas. As entradas sul e norte sofreram também importantes alterações, passando a primeira a ser mais larga, ladeada por dois portões rematados por coroas de louro, e a segunda constituída apenas por um portão, ficando as casas do guarda e do porteiro como suas adjacentes2. Em 1845, o interior do jardim foi reorganizado, destacando-se um lago, um repuxo e duas estátuas representativas do rio Douro e do rio Tejo. A arborização foi renovada e parte dela substituída por arbustos. Por esta altura, o Passeio Público foi alvo de animações diversas como testemunham fontes disponíveis no Arquivo Municipal de Lisboa: organizavam-se concertos, espetáculos pirotécnicos e atuavam bandas de música a fim de proporcionar um ambiente festivo aproveitando a introdução da iluminação pública a gás, que teve o Passeio como um dos palcos desta experiência. Em 1858, instalou-se um estabelecimento destinado a café concerto com espetáculos em cartaz 3.
Contudo, a partir do último quartel do século XIX, o plano urbanístico que orientou o crescimento da cidade para norte viria a ditar o seu fim e a sua substituição pela Avenida da Liberdade. O aumento demográfico da capital e as consequentes transformações a nível social e da estética urbana resultaram na concretização da abertura de um boulevard do tipo francês que iria culminar numa rotunda, a atual praça Marquês de Pombal. A abertura da luxuosa Avenida da Liberdade, em 1879, proporcionava a concretização do plano de melhoramento de Lisboa delineado por Frederico Ressano Garcia, que soube aproveitar os caminhos já existentes (Picoas, Entre Campos e Campo Grande) traçando uma rede de avenidas principais ainda hoje conhecidas por Avenidas Novas.
Todavia, esta mudança não foi feita sem protesto. O Passeio Público tinha marcado por mais de um século os hábitos sociais e urbanos dos lisboetas e a sua presença estava enraizada no espirito dos habitantes pelo que, cinco anos antes da demolição, mais precisamente em 9 de Junho de 1874, a Câmara Municipal de Lisboa recebeu um abaixo-assinado com cerca de 1600 assinaturas que condenava o seu desaparecimento definitivo.
No decorrer do processo de demolição, a cascata foi posta à venda em hasta pública pela Câmara Municipal de Lisboa, em 26 de maio de 18845. O documento em destaque com o desenho da cascata faz parte deste processo de venda. Segundo o parecer nº 1342 da Comissão de Obras e Melhoramentos da Câmara, não houve lugar a licitação, pelo que foi proposta a sua demolição. Já as estátuas decorativas, representativas dos rios Douro e Tejo deveriam, segundo o parecer nº 1358 da referida comissão, ser aproveitadas para a decoração da Avenida da Liberdade6.
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