Agosto 2020

 
 
 

130 anos do Coliseu dos Recreios de Lisboa

Fachada principal do Coliseu dos Recreios | Código de referência: PT/AMLSB/CMLSBAH/COPA/001/09351

Título: Fachada principal do Coliseu dos Recreios
Código de referência: PT/AMLSB/CMLSBAH/COPA/001/09351
Data: Junho de 1888
 
O documento em destaque pretende evocar o Coliseu dos Recreios de Lisboa no mês em que são assinalados 130 anos da sua inauguração. Trata-se de uma peça desenhada da fachada principal do edifício, do projeto inicial do "Circo-Theatro”, autoria do arquiteto François Gaulard, datada de junho de 1888.

Este documento é parte integrante do processo de obra nº 11299, que reúne a documentação técnica e administrativa apresentada à Câmara Municipal de Lisboa para aprovação da construção, alteração e manutenção do edifício sito na rua das Portas de Santo Antão, 92 a 104. Os processos de obra, onde esta documentação se integra, constituem o maior e mais solicitado conjunto documental à guarda do Arquivo Municipal de Lisboa.

Sobre este tipo de documentação sugere-se a leitura do artigo de Vasco Brito, "Os Processos de Obra no Município de Lisboa: origem documental, estrutura tipológica e classificação patrimonial” publicado na revista Cadernos do Arquivo Municipal, nº 5 (2001) (http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/fotos/editor2/55.pdf ).

O processo de obra do Coliseu dos Recreios é, atualmente, constituído por 4 volumes com documentação gráfica e textual, manuscrita e impressa, datada entre junho de 1888 e 2015. Esta documentação, além de fornecer informação sobre as intervenções técnicas do edifício, permite também saber quem foram os responsáveis pela sua execução teórica e prática.

De acordo com o estudo de Mário Moreau1, a construção do Coliseu dos Recreios deve-se à iniciativa de Pedro António Monteiro, António Caetano Macieira, João Batista Gregório de Almeida e José Frederico dos Santos Taveira, frequentadores dos Recreios Whitoyne, teatro-circo que, tendo sido inaugurado em maio de 1882, foi demolido para dar lugar à estação de comboios do Rossio.

Uma vez que o coliseu existente na rua da Palma localizava-se a alguma distância e apresentava modestas instalações, e pensando que a cidade necessitava de um circo numa zona mais central, os quatro amigos adquiriram em leilão os terrenos incultos do Pátio do Sequeiro, também designado de Sequeiro de São Luís, situados na então rua de Santo Antão, para a construção do novo coliseu, constituindo a Empresa de Recreios Lisbonenses, da qual também fizeram parte outos acionistas. Em 5 de julho de 1888 dava assim entrada na Câmara Municipal de Lisboa um projeto para construção de um coliseu naquele local, aprovado pela edilidade em 31 de agosto do mesmo ano.

O projeto terá sido inicialmente confiado ao arquiteto José Luís Monteiro, porém, como este não aceitou as condições propostas por aquela empresa, foi solicitado ao arquiteto Domingos Parente da Silva que abdicou da tarefa a favor do engenheiro francês François Gaulard depois de ter conhecimento que este se propunha realizar o trabalho. No entanto, foi o filho do último, seu homónimo, quem se encarregou do projeto com a colaboração do engenheiro Bauer, também francês, e com a intervenção do engenheiro Frederico Ressano Garcia e do mestre-geral de obras da Câmara Municipal de Lisboa, Manuel Gouveia Júnior.

O Coliseu dos Recreios de Lisboa foi concebido em formato octogonal, assumindo por isso a configuração de circo, o que permite a transformação do seu recinto em plateia. Da sua construção destaca-se com notável particularidade, a cúpula em ferro fabricada em Berlim. Esta estrutura metálica, com 100 toneladas e com 48,68 m de diâmetro, previamente montada no solo, foi içada por guindastes à velocidade de 2 metros por hora e assente sobre as paredes exteriores do edifício.

À data da inauguração, o Coliseu dos Recreios de Lisboa tinha capacidade para 5700 lugares. O recinto possibilitava 1200 lugares de plateia e a zona circundante, em forma de anfiteatro, tinha capacidade para 2500 espectadores. Era constituído por 110 camarotes para público em geral e o camarote real situava-se de frente para o palco. Foi também contemplada uma galeria, por cima dos camarotes de segunda ordem, denominada "Promenoir”, uma inovação na cidade, com capacidade para 1200 lugares de pé ou sentados.

De acordo com o noticiado pelo semanário "Pontos nos ii”, de 22 de agosto de 1890, os moradores da rua de Santo Antão desconheceram, durante muito tempo, a finalidade da construção de grandes proporções que ali decorria. Entre as sugestões do que pudesse ser "Aquela masmorra, aquela praça forte, aquele Castelo S. Jorge nº 2”2, dizia-se que se destinava a uma praça de touros, a uma penitenciária ou a um forno de cremação de cadáveres. Por isso, no dia da inauguração, a curiosidade dos lisboetas levou-os à rua de Santo Antão onde se aglomeraram, dificultando a entrada do público na nova sala de espetáculos.

A inauguração do Coliseu dos Recreios de Lisboa deu-se em 14 de agosto de 1890 com a apresentação da obra "Boccaccio”, de Franz von Suppé, pela Companhia Caracciolo, antecedida da interpretação do "Hino do Coliseu dos Recreios”, da autoria do maestro Rio de Carvalho, pela orquestra também por ele dirigida.

A consulta desta documentação é apenas presencial e mediante agendamento prévio. (Obra 11299; Volume 1 ; Processo 7237/1ªREP/PG/1889 - Tomo 1; Página 3)
Encontre outros documentos sobre o mesmo assunto na base de dados on line do Arquivo Municipal de Lisboa utilizando as palavras chave: coliseu dos recreios.
 

Ana Saraiva
Arquivo Municipal de Lisboa



Bibliografia:

FERREIRA, Matilde Ferraz Leal César – o imaginário e a imagem da avenida da Liberdade. Lisboa: [s.n.], 2015. Dissertação de mestrado para obtenção do grau de mestre em Arquitetura, apresentada à FAUL – Universidade de Lisboa. [Consult. 02.07.2020]. Disponível na Internet: https://www.repository.utl.pt

MOREAU, Mário – Coliseu dos Recreios: um século de História. Lisboa: Quetzal Editores, 1994.

Occidente [Em linha]. Nº 420 (21.08.1890). [Consult. 07.07.2020]. Disponível na Internet: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/Ocidente/1890/N420/N420_master/N420.pdf

pontos nos ii [Em linha]. Nº 269 (22.08.1890). [Consult. 03.07.2020]. Disponível na Internet: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/PONTOSNOSII/1890/N269/N269_master/N269.pdf

VILLAVERDE, Manuel - Rua das Portas de Santo Antão e a singular modernidade lisboeta (1890–1925): arquitectura e práticas urbanas [Em linha]. [Consult. 04.07.2020]. Disponível na Internet: https://run.unl.pt/bitstream/10362/12456/1/ART_10_Villaverde.pdf



1 MOREAU, Mário –  Coliseu dos Recreios: um século de história. Lisboa: Quetzal Editores, 1994.
2 Pontos nos II [Em linha]. Nº 269 (22.08.1890), p. 268. [Consult. 03.07.2020]. Disponível na Internet:


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