Agosto 2021

 
 
 

José Júlio Rodrigues na fotografia em Portugal

Panorâmica tirada da casa dos Condes de Penha Garcia, ao Príncipe Real | Código de referência: PT/AMLSB/ORI/000675

Documento: [Panorâmica tirada da casa dos Condes de Penha Garcia, ao Príncipe Real]

Data: [entre 1875 e 1880]

Código de referência: PT/AMLSB/ORI/000675

No contexto do Dia Mundial da Fotografia, celebrado em 19 de agosto, data da apresentação do daguerreótipo na Academia de Ciências em Paris (1839), destacamos o trabalho de José Júlio de Bettencourt Rodrigues (1843-1893), químico, ligado à elite científica da época, com uma ação direta e interventiva no desenvolvimento e reconhecimento internacional da fotografia portuguesa.

A invenção da fotografia surge numa época de grandes transformações económicas e sociais que deram origem a uma série de inovações e desenvolvimentos, derivados, entre outras causas, das novas solicitações das indústrias emergentes, nomeadamente a química e a eletricidade. No século XIX, o interesse pela modernização e desenvolvimento económico dos países, fortalecido pelo incremento da ciência e da tecnologia, deu lugar a uma cultura científica que promovia a aplicação prática do conhecimento. Neste contexto, a ciência e os laboratórios de pesquisa assumem um papel determinante no desenvolvimento e, frequentemente, a elite ligada à ciência passa a desempenhar cargos na vida política, económica e administrativa.

Em Portugal, a modernização e o progresso do país alicerçava-se na doutrina política e económica preconizada pelo Fontismo, que fomentava o incremento das comunicações e transportes e o desenvolvimento da indústria e da agricultura. Esta política, que assentava numa nova ordem económica de caráter burguês, levou a que uma elite ligada à atividade científica viesse a ser consultada sobre assuntos governamentais ou solicitada para ocupar novos cargos. Paralelamente regista-se um empenhamento do Estado no sentido de criar estratégias para o desenvolvimento do país.

Numa época em que a fotografia como prática científica é utilizada por elites e intelectuais, esta política vai ter influência na área da fotografia, onde se destacam homens com uma sólida formação, membros de associações, academias e sociedades com um papel determinante na produção e disseminação de conhecimentos científicos e técnicos, até então restritos a uma elite.

A partir da segunda metade do século XIX, o desenvolvimento da fotografia e da ciência estão fortemente relacionados e, através do empenho de estudiosos e fotógrafos profissionais e amadores, a fotografia vai dando passos decisivos para a validação de um estatuto científico sob a influência dos poderes institucionais e do próprio Estado. Este dinamismo culminava muitas vezes em exposições nacionais e internacionais, que veiculavam conhecimentos tecnológicos e científicos na área da fotografia, permitindo a criação de redes de comunidades e círculos fotográficos, que contribuíam para a difusão e transmissão de saberes.

É neste contexto que se insere a figura de José Júlio Rodrigues, químico que, no quadro das suas atribuições, vai colocar a ciência ao serviço do país, com uma ação determinante no desenvolvimento da aplicação prática da fotografia à cartografia, contribuindo assim para a disseminação de conhecimentos, nomeadamente através do ensino técnico e da realização de conferências científicas e pedagógicas.

José Júlio Bettencourt Rodrigues, natural da Madeira, licenciado em Matemática e Filosofia, foi lente e diretor do Laboratório de Química Mineral na Escola Politécnica de Lisboa e Professor no Instituto Industrial e Comercial. Foi nomeado diretor da 
Secção Fotográfica da Direção Geral dos Trabalhos Geodésicos, Topográficos, Hidrográficos e Geológicos do Reino, criada em 1872 para realizar serviços de fotografia para os diversos departamentos do Estado português e produzir cartas corográficas, geológicas e geográficas. Desenvolveu estudos e aperfeiçoou, entre outros, os processos de fotolitografia, fotozincografia e de gravura tipográfica. Publicou algumas dessas experiências no Jornal de Sciencias Mathematicas, Phisicas e Naturaes e organizou a 1.ª Exposição Nacional de Fotografia, em 1875. A qualidade técnica de reprodução de imagens foi reconhecida e elogiada na imprensa de vários países, tendo sido distinguido com diversos prémios pelos trabalhos apresentados nas exposições da Sociedade Francesa de Fotografia, em 1874, na Exposição de Filadélfia, em 1876, e no Congresso Internacional das Ciências Geográficas de Paris, em 1875, onde obteve uma carta de distinção.

A partir desta época, manteve uma atividade muito intensa em termos de produção e, em 1879, publicou o seu trabalho sobre fotografia, 
Procédés Photographiques et Méthodes Diverses D’impressions aux Encres Grasses, onde descreve os procedimentos técnicos e a importância da fotografia para a cartografia e serviços geográficos do país.

À semelhança de outros homens de ciência, foi membro de várias sociedades científicas da época, nomeadamente da Sociedade de Geografia, da Academia Real das Ciências de Lisboa e da Sociedade Francesa de Fotografia, onde realizou conferências e palestras. Em 1892 viajou para o Brasil, mas regressou pouco tempo depois a Lisboa, onde veio a falecer aos 50 anos de idade.

José Júlio Rodrigues, para além de ter participado na vida política, administrativa e económica do país, desempenhando cargos no Parlamento, na administração local e em empresas industriais, contribuiu ativamente para a disseminação de conhecimentos científicos e técnicos, nomeadamente na área da fotografia, tendo sido reconhecido a nível nacional e internacional pelos estudos que desenvolveu e pelos progressos que introduziu na reprodução de imagens. A investigação da referida Secção Fotográfica foi considerada na época, das mais avançadas da Europa. A difusão internacional do seu trabalho como fotógrafo ao serviço da ciência e do seu país, assim como a atribuição de prémios, condecorações e distinções, revertem para uma imagem de prestígio internacional de Portugal.

A fotografia representada é uma panorâmica de Lisboa tirada por José Júlio Rodrigues da casa dos Condes de Penha Garcia, no Príncipe Real. Foi publicada no catálogo 
Provas originais 1858-1910 editado pela Câmara Municipal de Lisboa-Arquivo Fotográfico em 1993. Trata-se de uma prova em albumina, um pouco deteriorada e amarelecida, como é habitual neste tipo de suportes. A invenção deste processo usado no séc. XIX surgiu com o inventor e fotógrafo Louis Blanquart-Evrard (1802-1872). As provas de albumina, reproduziam melhor o contraste, as sombras e os pormenores, do que as provas em papel salgado.

Para obter este resultado eram usados ovos frescos e as claras batidas em castelo com uma quantidade adequada de cloreto de amónio ou de sódio. A mistura fermentava durante a noite e depois era colocada num recipiente com o papel a flutuar por um minuto, retirando-se em seguida para secar. Para imprimir sensibilizava-se o papel por flutuação, numa solução forte de nitrato de prata, que era seco no escuro e colocado na prensa ao sol. A imagem formava-se por ação direta da luz com uma cor vermelho acastanhado. A prova podia ainda passar por um banho de cloreto de ouro, que a tornava de cor castanha ou púrpura.

Pode encontrar este documento e outros documentos na base de dados do arquivo.

Otília Esteves
Arquivo Municipal de Lisboa - Fotográfico



Bibliografia

ALMEIDA, Carmen - A divulgação da fotografia no Portugal oitocentista: protagonistas, práticas e redes de circulação do saber. Évora: [s.n.], 2017. Tese de doutoramento em História e Filosofia da Ciência, Universidade de Évora [Consult.03.05.2021]. Disponível na Internet: http://hdl.handle.net/10174/21269

BARTHES, Roland - A câmara clara. Lisboa: Edições 70, 1989

BENJAMIM, Walter - Sobre arte, técnica, linguagem e política. Lisboa: Lisboa: Relógio d’água, 1992

FRIZOT, Michael - Histoire de voir: de l’invention a l’art photographique 1839-1880. Paris: Photo Poche, 1989

GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA.  Lisboa; Rio de Janeiro: Enciclopédia, [196-]. vol. IV

LEITÃO, Vanda - Assentar a primeira pedra: As primeiras comissões Geológicas portuguesas (1848-1868). Lisboa: [s.n.], 2004. Tese de doutoramento em História e Filosofia das Ciências. [Consult. 03.05.2021]. Disponível na Internet:  http://hdl.handle.net/10362/1118

MATOS, Ana - Entre o laboratório, a indústria e a intervenção política e administrativa. O químico José Júlio Rodrigues na sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX. In SERRÃO, José Vicente; PINHEIRO, Magda de Avelar; FERREIRA, Maria de Fátima Sá e Melo, org. - Desenvolvimento económico e mudança social nos últimos dois séculos. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2009. p. 173 -190.

MATOS, Ana Maria Cardoso de - Sociedades e associações industriais oitocentistas: projectos e acções de divulgação técnica e incentivos à actividade empresarial - Análise social. Vol. XXXI (136-137) (2.°-3.º 1996), p. 397-412. [Consult. 01. 07. 2021]. Disponível na Internet: https://core.ac.uk/download/pdf/62443892.pdf



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