Dezembro 2021

 
 
 

Fotografias de "família" num espaço e tempo colonial: questões e interpretações

Retrato de família, data(s): [1906-1921] | Código de referência: PT/AMLSB/AAS/000068










Documento: [Retrato de família]

Data(s): [1906-1921]

Código de referência: PT/AMLSB/AAS/000068


Desde meados do século XIX que a fotografia foi considerada como uma representação objetiva da realidade, apesar das suas limitações no que respeita à captura e fixação da imagem ou movimento e à possibilidade de manipulação intencional ou involuntária.

Do mesmo modo, como forma de representação do espaço e do tempo, a fotografia fornece uma ótica diferente de explorar um momento fixado numa imagem. A capacidade de perceção e leitura que a fotografia permite, informada pela visão subjetiva, pelo consumo de imagens e pela sua crescente proeminência em relação a outras formas de comunicação, desafia-nos a interrogar conceções do mundo e da sociedade que, por vezes, se negligencia ou se dá como consolidada numa memória inerte.

A fotografia que se traz à colação será da autoria de António Ayres da Silva (1875-1939), engenheiro de formação, com carreira militar e um posto de administração colonial em Angola no início do século XX. Sabemos que Ayres da Silva cedo ingressou no exército, em 1892, tendo progredido na carreira militar e recebido diversas condecorações, distinções e louvores por competência e zelo. Em 1906, com 31 anos, foi colocado em Angola onde assumiu o cargo de administrador da 5ª Circunscrição Civil de Luanda, tendo permanecido na colónia por 15 anos, regressando a Lisboa em 1921 com uma companheira africana e quatro filhos sobreviventes. Deste período na administração colonial em Angola, Ayres da Silva foi o responsável por um conjunto de obras, entre as quais a construção de pontes e a abertura de mais de 700 km de troços de estrada.

Centremo-nos na fotografia. Trata-se de um negativo de gelatina e prata em vidro, com 13 x 18 cm, e mostra-nos uma composição de quatro pessoas, um homem europeu, português decerto, sentado, acompanhado de duas figuras femininas africanas em pé, presumivelmente de origem angolana, de olhares cruzados e ladeando a personagem central, e ainda uma criança entre as pernas da figura masculina, segurada por ela, todos em pose frontal, ligeiramente a ¾. A única personagem que olha diretamente o fotógrafo é a criança, possivelmente devido a um misto de curiosidade e irrequietude, não obedecendo às orientações de pose que as figuras adultas cumprem.

Embora não saibamos quem são os retratados na fotografia, e não haja certezas quanto à relação entre as quatro pessoas, sua origem social, que posição e ocupação teriam na sociedade colonial, em que local e contexto foi realizada, quem foi o autor, de quem foi a ideia e a razão da sua concretização, e muitas outras interrogações que se podem colocar, esta fotografia é um valioso testemunho da prática fotográfica de retratos de família, sobretudo, por se situar geográfica e temporalmente num contexto colonial ao qual se encontrava inerente uma tessitura de relações de hierarquia social e cultural.

Num primeiro momento, o observador pode sentir-se inseguro sobre como ver e interpretar a imagem. Numa análise rápida, a fotografia encerra relações de poder várias, mais óbvia, de género, a da figura masculina sobre as femininas, ocupando o centro da composição e beneficiando da posição sentada, mais confortável e simbólica, enquanto as figuras femininas se encontram de pé, num espaço periférico ladeando o homem. Mas outras relações de poder podem ser divisadas. Sob uma perspetiva social e colonial, porque imbricadas, as duas mulheres e a criança encontram-se vestidas à europeia, o que denuncia pertencerem, ou possuírem, um estatuto social mais elevado na sociedade colonial que outras mulheres e homens anónimos autóctones de Angola. Para além dos elementos figurativos, o observador pode confrontar-se com uma desconexão entre os papéis dos retratados e o objetivo da fotografia no tempo e espaço onde foi realizada. O propósito e o entendimento de quem a pensou na conjuntura em que a produziu, pode não transportar uma intenção ou mensagem clara para o observador atual. Examinar a fotografia mais de cem anos depois de realizada, num espaço e tempo completamente afastados do contexto coevo, através de um exercício de hermenêutica sobre o texto visual, levanta imensas questões enformadas por uma multiplicidade de dimensões pertinentes, fraturantes e sempre atuais – raciais, coloniais, políticas, de género, culturais, familiares, entre outras – permanentemente problematizadas e objeto de discussão.

Não sabemos qual a relação entre as duas mulheres, a criança e o homem. Estaria implícita alguma relação familiar? Seguramente, sem a identificação dos retratados não é possível avançar com uma leitura final e definitiva, e a encruzilhada de interpretações possíveis encerrará uma elevada subjetividade. Seria o próprio António Ayres da Silva, a sua companheira, um filho e outra mulher do círculo familiar? A tentação de aceitar esta hipótese é elevada. Sabemos que Ayres da Silva teve uma companheira angolana e com ela regressou a Portugal depois da estadia em Angola. A figura feminina do lado direito do ponto de vista do fotógrafo tem, curiosa e significativamente, a sua mão direita sobre o ombro do homem, o que denuncia um substancial grau de intimidade. Um outro negativo da mesma coleção atribuída a Ayres da Silva mostra-nos precisamente apenas estas duas figuras em pose como um casal, com a mesma composição hierárquica e as mesmas roupas, ela de braço estendido com a mão escondida nas costas dele1.

Depois destas observações, sobressai, por força desse sentimento de imponderabilidade de avaliação (epistemológica, holística, metodológica, empírica, estética, simbólica, ética), a riqueza do texto visual desta fotografia, exposta nos vários caminhos e perspetivas de descodificação que encerra e propõe. 

Não cabe no propósito deste texto nem na sua economia produzir uma análise de conteúdo da fotografia, mas sim alertar para a sua existência e valor como documento de arquivo para estudos multidisciplinares.

Assim, produzir uma crítica informada às várias camadas de texto visual torna-se imperativo, o que configura novas experiências de reflexão na procura de nexos e sentidos para engrossar as perspetivas de estudo sobre relações de género, raciais, sociais e familiares nas sociedades coloniais no início do século XX. Se o paradigma da análise se tem centrado sobretudo nos tradicionais materiais textuais, o documento visual e o seu estudo permite uma comunicação entre as perceções visual e cultural, e os formatos visuais e simbólicos, numa perspetiva histórica e política, quer seja pela abordagem das disciplinas de História, Antropologia ou Sociologia, mas num cruzamento com os estudos visuais e pela crítica do medium fotográfico. Se Foucault propunha uma relação infinita entre a linguagem e a pintura, ultrapassando a complementaridade, essa articulação irredutível entre a imagem e a palavra, entre o significante e o significado, entre a superfície e as múltiplas camadas codificadas, encontra-se especialmente viva na fotografia e este exemplar em arquivo, uma "simples” fotografia de "família”, contém um espaço e tempo abertos à sua inquirição e convida à sua observação, leitura e reflexão.

Pode encontrar este documento e outros documentos na base de dados do arquivo.

Nuno Martins
Arquivo Municipal de Lisboa


1 Arquivo Municipal de Lisboa, PT/AMLSB/AAS/000058.



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