Fevereiro 2020

 
 
 

Bilhete para passeio Fluvial no Tejo - Congresso Municipalista de 1909

Congresso Municipalista de 1909 - Passeio Fluvial no Tejo | PT/AMLSB/SPEP/GACR/006/001/0165

Título: Congresso Municipalista de 1909 - Passeio Fluvial no Tejo
Data: 18 de abril 1909
Código de referência: PT/AMLSB/SPEP/GACR/006/001/0165

Este bilhete faz parte da documentação de arquivo da Sociedade Promotora de Educação Popular (S.P.E.P.), uma associação recreativa e de ensino fundada em Alcântara a 30 de setembro de 1904. O documento remete-nos para um acontecimento político importante que ocorreu em Lisboa no início do século XX – O Congresso Municipalista de 1909.1

Do acervo da Sociedade Promotora de Educação Popular fazem parte outros documentos de relevante interesse histórico, eles desvendam a história de uma associação centenária, consagrando a sua importância na vida de uma comunidade. Considerando a relevância deste ‘Arquivo de comunidade’, reconhecendo a sua importância para a salvaguarda da memória coletiva, em maio de 2019 foi celebrado um acordo de colaboração entre a Câmara Municipal de Lisboa – Divisão de Arquivo Municipal, e a Sociedade Promotora de Educação Popular. O acordo pretende assegurar a salvaguarda de uma importante fonte de informação histórica, política e cultural, tornando-a acessível ao público.

Desde a celebração deste acordo prosseguem os trabalhos de inventariação, seleção, estudo e tratamento documental do acervo com significado cultural, bem como, a recolha de memórias sobre a instituição.

A Sociedade Promotora de Educação Popular (S.P.E.P.): um arquivo com história

No final do século XIX e início do século XX surgem em Lisboa vários clubes e centros escolares ligados ao partido republicano. Estes espaços tinham ações muito diversas, desde o ativismo político, à formação cultural e pedagógica. É neste contexto que é fundada em Alcântara, a 30 de setembro de 1904, a Sociedade Promotora de Educação Popular - (S.P.E.P.), uma sociedade recreativa e de ensino conhecida como "A Promotora”. De iniciativa privada, deve a sua existência a um grupo de comerciantes e industriais, residentes em Alcântara, ligados ao partido republicano e à maçonaria.Convictos de que só através da educação poderiam alcançar a regeneração social da população de Alcântara, ambicionaram combater o analfabetismo, difundindo a instrução junto das classes populares.

Em Alcântara, zona fabril, surge no início do século XX um modelo de escola inovador, uma escola laica, assente nos princípios da liberdade, emancipação e solidariedade. A S.P.E.P. inicia a sua atividade em outubro de 1905, na Rua de Alcântara nº 125 (6), 2º. As primeiras aulas são ministradas segundo o método João de Deus, são gratuitas, destinam-se a alunos analfabetos maiores de 12 e funcionam no período noturno.
Nos primeiros anos os alunos matriculados são maioritariamente operários e analfabetos, com uma média de idades a rondar os 26 anos, de acordo com a análise dos registos de matrículas entre 1905 - 1914. A instituição cumpre assim uma das suas principais missões "assistir ao nosso operariado, dissipando as trevas do analfabetismo, lançando centelhas de luz no espírito da classe trabalhadora”.2

No ano letivo 1907/1908 o ensino foi alargado ao sexo feminino, passando a ser também diurno, e nos programas curriculares já constam aulas primárias elementares, aulas de língua portuguesa, francês, aritmética, desenho, escrituração e contabilidade comercial, história, geografia portuguesa e música.
Em 1912 e devido à grande afluência de alunos, a sociedade adquire um novo espaço para instalação da sua nova sede, um edifício localizado no Largo das Fontaínhas, 19 (antigas cocheiras do Palácio Real de Alcântara). Neste novo espaço - onde se mantém até hoje – continuou a fortalecer a sua relação com a comunidade, quer através do ensino, quer através da vertente recreativa.
A S.P.E.P. acolheu, formou e animou a sua comunidade, proporcionando as mais diversas atividades – sessões de cinema, soirées, bailes, teatro, excursões, concertos, e conferências sobre os mais diversos temas. Por tudo isto foi considerada "Benemérita da Instrução”, pela Liga Nacional de Instrução, aquando do seu 1º Congresso Pedagógico em 1908.

De forte cariz republicano, a Sociedade Promotora de Educação Popular teve o apoio de importantes personalidades ligadas à história da cidade e do país, onde se destacam, Sebastião de Magalhães Lima (primeiro presidente da assembleia geral e sócio honorário), Bernardino Machado, Manuel de Arriaga, Machado dos Santos, entre outros. Foram estas individualidades de vanguarda do partido republicano o "rosto” desta sociedade de ensino nos primeiros anos da sua existência, projetando a escola a nível local e nacional, elogiando o seu modelo de educação - inspirado no movimento internacional que ficou conhecido pela expressão "Educação Nova”.

Na S.P.E.P, no início do século XX, realizaram-se importantes comícios e conferências com distintos oradores, importantes figuras da I República, mas também houve lugar para os discursos feministas, em 1906 discursou Vírginia Guerra Quaresma (1882-1973) secretária da secção feminista da Liga Portuguesa da Paz (1899).
Através da intensa propaganda cultural e política, feita nas instalações da S.P.E.P., o partido republicano ganhou a adesão dos habitantes de Alcântara à causa republicana, com expressão na eleição da 1ª vereação republicana de 1908.

A documentação de arquivo produzida pela S.P.E.P. é uma importante fonte para a reconstituição da história política do país durante a I República, mas também, uma importante fonte de conhecimento sobre a vida social, os hábitos culturais e o património industrial do bairro de Alcântara.

Uma associação para a comunidade

Não obstante as transformações sociais e políticas que ocorreram no país e que condicionaram, de algum modo, a atuação e a gestão das sucessivas direções da S.P.E.P, esta instituição de ensino continua a difundir os valores e ideais que levaram à sua criação; tem acompanhado e formado academicamente várias gerações, mantendo-se uma instituição ligada ao ensino dos valores culturais, morais e cívicos e ao desenvolvimento físico e intelectual dos seus alunos, coopera em diversas iniciativas culturais e sociais promovidas pela Junta de Freguesia de Alcântara e por outras entidades locais. Atualmente possui várias valências, atuando nas áreas educativa, social, recreativa e cultural, enquanto:
  1. Associação de Beneficência e Instrução;
  2. Instituição Particular de Solidariedade Social de Utilidade Pública;
  3. Coletividade de Cultura, Recreio e Desporto (membro CPCCRD Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto nº 220).
Com sede em Alcântara há 116 anos esta ‘associação com história’ guarda um acervo documental que reflete os motivos sociais da sua fundação, a importância de uma associação na vida da comunidade, o contributo para a promoção desportiva, cultural social e individual. É uma fonte de informação e aprendizagem sobre solidariedade, cidadania e desenvolvimento comunitário.

Sílvia Félix
Arquivo Municipal de Lisboa



1 Promovido e organizado pela Câmara Municipal de Lisboa, nesta altura com uma vereação inteiramente republicana, resultante das eleições municipais de 1 de novembro de 1908, o congresso realizou-se nos Paços do Concelho, entre 16 e 21 de abril de 1909.O barco a vapor Frederico Guilherme, pertença da Parceria Dos Vapores Lisbonenses, foi o barco alugado pela Sociedade Promotora de Educação Popular - (S.P.E.P.) para que os seus sócios pudessem participar no cortejo fluvial no Tejo, prestando a sua homenagem aos representantes das câmaras municipais, presentes no congresso.
2 In revista " A Educação Popular", Sociedade Promotora de Educação Popular, fevereiro de 1910



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