Janeiro 2019

 
 
 

 
Helena Corrêa de Barros. Fotografia, a minha viagem preferida

Mar e trabalho

À espera do pai Nazaré; 1953 | Código de referência: PT/AMLSB/HCB/001/000038Peniche; 1953 | Código de referência: PT/AMLSB/HCB/007/000861
Descrição: À espera do pai; Nazaré 1953
Dimensão: 29,8 x 39,7 cm
Suporte: Prova em papel direto de colódio ou gelatina
Código de referência: PT/AMLSB/HCB/001/00038

Descrição: Peniche; 1953
Dimensão: 35 mm com caixilho
Suporte: Diapositivo cromogénio em acetato de celulose Kodachrome
Código de referência: PT/AMLSB/HCB/007/000861


No âmbito da exposição Helena Corrêa de Barros. Fotografia, a minha viagem preferida, patente ao público no Arquivo Municipal de Lisboa / Fotográfico, resultado de uma investigação a partir da coleção de imagens privadas doada pela família à Instituição em 2003, destacam-se duas fotografias.

O contraste das imagens indicia a abordagem fotográfica de Helena Corrêa de Barros (1910-2000) que também pescava e detinha uma embarcação. A par da fotografia de família, de viagens, de cultivo de plantas, de arranjo de jardins e de muitos outros interesses, a autora dedicou-se a fotografar vários momentos da pesca tanto em alto mar como através do ambiente vivido pelos pescadores e pelas suas famílias.

Ambas as imagens, do mesmo ano, de Nazaré e de Peniche, apresentam o tema do mar e do trabalho e introduzem a sociedade nacional da época. A primeira retrata, através de uma visão a preto e branco, melancólica, a inquietação e a pobreza de três crianças com os pés à beira mar, olhando para o horizonte, com um título igualmente enternecedor, em oposição a uma imagem a cores repleta de força laboral, da faina dos pescadores a atracar, captada dentro de água pela fotógrafa, provavelmente numa pequena embarcação. Enquadramento surpreendente e inovador que nos capta o olhar e nos encanta, sendo este um registo frequente da autora. A vocação humanista sentida nestas imagens está presente na maior parte do seu trabalho.

A fotógrafa amadora, por um lado, elegeu a abordagem artística na década de 1950, num recurso à fotografia a preto e branco, para se apresentar no contexto do foto clubismo, em concursos e exposições de fotógrafos amadores, principalmente através do Foto Clube 6x6, e por outro, escolheu a abordagem documental, interveniente e sensorial do diapositivo a cores para registar o quotidiano.

A ambivalência da autora, entre a estética salonista e a prática documental, demonstra bem o seu posicionamento perante a fotografia. A exigência artística e um domínio técnico, aliados ao uso simultâneo de várias máquinas 35 mm e à escolha de películas fotográficas de qualidade, contribuíram para a sua dupla aptidão fotográfica, num testemunho feminino de relevante qualidade.

Helena Corrêa de Barros participou no retrato da sociedade a par de outras mulheres como Maria Lamas (1893-1983) que, de modos diferenciados, mas de olhares convergentes, empreenderam a afirmação feminina. Estas mulheres, muito intervenientes também no papel social que detinham, Maria Lamas na escrita e na edição e Helena nas obras de beneficência, algumas herdadas de sua mãe, deixaram um legado atento e sensível da realidade quando o que se pedia à mulher era que fosse recatada.

A exposição Helena Corrêa de Barros. Fotografia, a minha viagem preferida pode ser visitada até 23 de fevereiro de 2019 no Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico, de segunda a sábado, das 10 às 19 horas.



Leia mais sobre este assunto:

LAMAS, Maria - As mulheres do meu país. Lisboa: Editorial Caminho, 2002. ISBN 972-21-1491-3.

LISBOA. Câmara Municipal. Arquivo Fotográfico - Helena Corrêa de Barros : fotografia, a minha viagem preferida. Lisboa: CML, 2018. ISBN 978-989-99505-7-3.
Outras referências:

CALADO, Jorge - Au Féminin: women photographing women, 1849-2009. Paris. Centre Culturel Calouste Gulbenkian, 2009. ISBN 978-972-8462-52-9.

SENA, António - História da imagem fotográfica em Portugal 1839-1997. Porto: Porto Editora, 1998. ISBN 972-0-06265-7.


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