Janeiro 2020

 
 
 

Projeto do arq. Ventura Terra para monumento triunfal aos heróis da Guerra Peninsular

 
Maqueta para o monumento da Guerra Peninsular, projeto do arquiteto Ventura Terra | PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/000399

Data: 1909-03
Código de referência: PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/000399


Em 1908, presidida por Anselmo Braancamp Freire, eleito pelo Partido Republicano Português (PRP), a Câmara Municipal de Lisboa (CML) lançou um concurso público para a construção de um monumento comemorativo aos heróis da Guerra Peninsular, a erigir na praça Mouzinho de Albuquerque (atual rotunda de Entrecampos) virado a sul para a avenida da República.

Miguel Ventura Terra (1866-1919), profícuo arquiteto formado na prestigiada École Nationale et Speciale des Beaux-Arts, em Paris, arreigado republicano, vereador da CML (1908-1913), onde integra várias comissões e submete imensas propostas de beneficiação em toda a cidade, membro da Comissão dos Monumentos Nacionais – desde 1897 como vogal, e de 1911 a 1919 como presidente, acumulando os cargos de vogal do Conselho de arte e Arqueologia e de delegado no Conselho de Arte Nacional – propôs à Comissão de Avaliação do Concurso, um desenho para o monumento de feição em arco triunfal. A fotografia acima mostra a maqueta da proposta em exposição na Sociedade de Geografia, em 1909.

O projeto de Ventura Terra não seria o vencedor, acabando por ser preterido em favor de uma outra proposta, apresentada pelos irmãos Francisco, arquiteto, e José de Oliveira Ferreira, escultor.

Ventura Terra havia sido convidado por Bernardino Machado, em 1908, a integrar a lista do PRP à CML, convite que aceitou imbuído de uma visão missionária modernizadora da cidade, através de soluções urbanísticas e arquitetónicas de cariz estético e funcional. Após 1910, num ambiente de promoção do ideal democrático-liberal de organização e desenvolvimento da vida social da república, assente numa inspiração patriótica rejuvenescida e revigorada pelos impulsos de uma nova ordem jurídico-política, e à luz do positivismo científico, a elite política republicana recuperaria aquele período da História de Portugal num contexto comemorativo, em que os monumentos imbuídos de celebração patriótica contribuiam, em simultâneo, para o embelezamento da cidade, mas também, para a consolidação da memória no espaço urbano – os lugares de memória de Pierre Nora.

O arco triunfal de Ventura Terra seria, curiosamente, uma emolução do monumental Arco do Triunfo dos Champs Elysées, que certamente admirou aquando da sua estadia em Paris, entre os anos de 1886 e 1895.
De inspiração clássica romana, os arcos triunfais tiveram ao longo dos séculos um enorme apelo e um significado profundo na exibição pública do poder político dos monarcas europeus no período moderno. Remontando às celebrações em Roma nos desfiles triunfais dos vitoriosos generais vindos das campanhas no império, o arco triunfal foi associado por homologia, no período tardo-medieval ou primo-moderno, aos rituais de transição das portas das cidades nas cerimónias de manutenção de privilégios por contrapartida à obediência ao poder real. Já em pleno Renascimento europeu, readquiriu poder simbólico e foi cooptado pelas monarquias como poderoso significante do poder do rei e dos emergentes impérios europeus. Sempre presente por via de elaboradas estruturas efémeras, nas aparatosas entradas reais – cerimónias de subjugação e admiração dos súbditos e dos poderes locais que recebiam o rei –, a riqueza dos arcos triunfais e a complexidade da linguagem simbólica arquitetónica, refletia e coadunava-se com o poder do rei e refletia a magnificência da monarquia.

No dealbar do século XIX, embora estes cenários fossem longínquos, o arco triunfal permaneceu como poderoso significante político, no qual os objetivos e significados político-comemorativos continuaram associados a uma capacidade simbólica ligada à génese matricial do general triumphator romano. Foi essa a matriz do quadro mental subjacente ao massivo arco do triunfo parisiense, ordenado erigir em 1806, e apenas terminado em 1836, em memória da vitória de Napoleão Bonaparte na guerra de Austerlitz sobre as forças austro-russas dos imperadores romano-germânico Francisco II, e I de Áustria, e do czar Alexandre I da Rússia.

Das campanhas do Império Napoleónico, fizeram parte as invasões à península ibérica, para a subjugação dos reinos de Espanha e Portugal à conquista imperial francesa nos anos de 1807 a 1814. Se as duas primeiras campanhas dos exércitos franceses em solo português (1807-1809) se saldaram vitoriosas, apesar da resistência e guerrilhas miliciana e popular, as invasões não obtiveram o resultado esperado de conquista do território português. Permeada por vários reveses em Portugal e Espanha, a terceira campanha acabou num decisivo fracasso. O exército português, sob reorganização e comando britânico do General William Beresford – escolhido por Arthur Wellesley, Marechal-General do exército anglo-português e Comandante-Chefe das forças britânicas em combate na península ibérica, mais tarde, 1º Duque de Wellington –, não só resistiu como acabou por derrotar as colunas francesas nas Linhas de Torres Vedras, em 1810.

Se o Arco do Triunfo parisiense foi, em 1806, a celebração do império napoleónico, a proposta de Ventura Terra, igualmente em modelo de arco triunfal era, cem anos depois, o contraponto nacional da resistência vitoriosa a esse mesmo desígnio imperialista francês, utilizando precisamente o mesmo modelo arquitetónico de celebração.
Numa escala mais moderada, e sem arcos transversais, ainda assim, o arco triunfal de Ventura Terra, encimado pela figura feminina da Republica vitoriosa, subjugaria em volume, altura e largura o projeto vencedor, triplicando o comprimento frontal e mais que duplicando a altura máxima – para se imaginar a sua volumetria, visualize-se que o monumento atual caberia totalmente no arco interior de Ventura Terra.

A ter sido erigido, o monumento criaria uma simbólica transição entre o fim da avenida da República e o grande parque do Campo Grande. Mais que uma fronteira geográfica, o arco triunfal de Ventura Terra, constituiria-se como uma evocativa entrada para uma capital em transformação modernista, porta de acesso a uma zona alvo de recentes e profundas renovações, desde os projetos de Ressano Garcia, e que o próprio arquiteto perseguia e contribuiu com propostas no âmbito da sua atividade técnico-política na vereação lisboeta.

Apesar de não ter sido concretizado, o projeto memorialista de Ventura Terra teria sido a materialização de uma visão e pensamento situados cronologicamente num tempo e sociedade que Portugal, através do Partido Republicano, acreditava ser o motor de desenvolvimento, não só nos domínios económico e científico, mas também, no âmbito social e ideológico.

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Nuno Martins
Arquivo Municipal de Lisboa




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