Julho 2021

 
 
 

O animatógrafo da Sociedade Promotora de Educação Popular (SPEP)


Instalação do animatógrafo da Promotora, 1915-02-07 Código de Referência: PT/AMLSB/SPEP/GACR/006/003/0006



Documento: [Instalação do animatógrafo da Promotora]

Data: 1915-02-07

Código de referência: PT/AMLSB/SPEP/GACR/006/003/0006

O documento em destaque este mês faz parte do acervo documental da Sociedade Promotora de Educação Popular (SPEP), uma sociedade de ensino com sede em Alcântara há 117 anos. No âmbito de um protocolo celebrado entre a Câmara Municipal de Lisboa e a SPEP está a ser desenvolvido o tratamento documental do arquivo desta instituição, para disponibilização ao público.

A carta circular1 que destacamos foi dirigida à comunidade de Alcântara, informa sobre a instalação de um animatógrafo na sede da SPEP, no Largo do Calvário n.º 6, 1º, no ano de 1915. Em maio de 1929 o animatógrafo recebeu ordem de encerramento, após vistoria da Inspeção-Geral dos Teatros Nacionais. Porém, a ordem de encerramento não levou à extinção do espaço cinematográfico da instituição, mas sim à sua modernização.

Pode encontrar este documento ou outra documentação sobre a Sociedade Promotora de Educação Popular na base de dados do arquivo.



A experiência do animatógrafo surgiu em Lisboa a 18 de junho de 1896 no Real Coliseu de Lisboa (R. da Palma), através do projetor «Theatrograph» trazido a Lisboa por Edwin Rousby 2.

"O animatógrapho agradou ontem extraordinariamente […] é um verdadeiro prodígio, é uma completa e inteira novidade que tem feito as delicias do público [...]” 3

O sucesso destas sessões, às quais o público aderiu em massa, originou a instalação de animatógrafos em casas de espetáculos, antigos teatros e algumas sociedades recreativas, como foi o caso da Sociedade Promotora de Educação Popular4 (SPEP).

O animatógrafo da SPEP foi instalado na sede da sociedade, em fevereiro de 1915, parecia a obra perfeita para trazer benefícios à instituição. Não só seria possível aumentar o número de associados, mas também, os lucros do animatógrafo seriam usados para manter o funcionamento da escola, de forma a dar continuidade à instrução das classes populares.

As sessões cinematográficas funcionavam no salão de espetáculos da instituição. Nos primeiros anos estas sessões foram intercaladas com outras atividades recreativas como teatro, bailes ou concertos. Grosso modo para a abertura do animatógrafo foi necessário: licença do Governo Civil de Lisboa, autorização do senhorio (o edifício onde estava instalada a sede da SPEP era propriedade da Nova Companhia Nacional de Moagens), e também, pequenas obras de conservação; comprar uma plateia para o público (adquirida ao Teatro Apolo); comprar projetores5; reforçar a corrente elétrica; contratar um projecionista e músicos. Nesta época, como os filmes eram mudos, beneficiavam de acompanhamento musical, por um quinteto ou uma orquestra.

À semelhança de outros animatógrafos que surgiram em Lisboa, este também não reunia as condições ideais de segurança (estava situado num 1º andar; sem acesso direto à rua; o salão continha materiais combustíveis - pavimentos e estruturas em madeira; por baixo do animatógrafo existia uma tanoaria). Todos estes factores ameaçavam a segurança6 do espaço. Em 1927, com a regulamentação em vigor7 para as casas e recintos de espetáculos, e com a atribuição de competências aos delegados da Inspeção-Geral dos Teatros8, o incumprimento dos requisitos de segurança originou vistorias técnicas, multas e até o encerramento de muitos destes espaços.

Apesar das modestas condições, o animatógrafo era um sucesso no bairro e um novo espaço de entretenimento da comunidade. Em 1923 possuía os seguintes funcionários: porteiro; fiscal; cobrador; operador de cabine e ajudante; e um pianista. Nas despesas com o animatógrafo estavam ainda incluídas as gratificações a um polícia e bombeiro. Um mês após a sua abertura, o animatógrafo foi assim divulgado no jornal:

"O animatógrafo da Promotora no Calvário, 6, é um salão recomendável, não só pela escolha dos seus programas que são compostos sempre pelos melhores «films» que veem a Portugal, como pelo sossego e segurança, predicados estes de bastante valia para os espectadores”.9

O fornecimento de fitas «filmes»

Este fornecimento era assegurado através de contratos de aluguer com as empresas distribuidoras. Entre 1915-1926 as principais distribuidoras para o animatógrafo, foram: a Portugália Film; Castello Lopes; Companhia Cinematográfica de Portugal e Raul Lopes Freire (proprietário do Salão Central, Restauradores). Recordamos uma das fitas exibidas no animatógrafo em 1917, a fita cómica Pratas, o conquistador, ao estilo dos filmes de Charlie Chaplin, mas de um realizador e distribuidor português - Emídio Ribeiro Pratas (1899-1966) que geria a empresa Pratas Films. A fita foi alugada pelo preço de 3$00.

Dificuldades na gestão do animatógrafo

Na década de 20 surgem dificuldades financeiras com o animatógrafo. Este período coincidiu com a abertura de novas salas de cinema nas proximidades, o que levou à perda de público e de receitas.

Note-se que em Alcântara, em 1921, surgiu o Éden-Cinema ou "cinema piolho”, na R. do Alvito, mas também, mais afastados, surgiram novos cinemas: Belém Cinema (1925); Salão Portugal (1928), na Ajuda; Cinema Palatino (1931), em Santo Amaro. A abertura destes cinemas originou a execução de novas medidas, tais como: redução no preço dos bilhetes, proibição de cartões de livre-trânsito10 e reforço da publicidade.

O Cinema Promotora

De forma a recuperar público, em 1927 são celebrados contratos de aluguer com duas novas distribuidoras: a Paramount Pictures e a Metro-Goldwin-Mayer (MGM). Estes contratos possibilitaram a renovação da programação, com a exibição de filmes americanos acabados de estrear. Um ano após a vigência destes contratos, há referência a excesso de lotação no animatógrafo. Contudo, foi precisamente no período de recuperação financeira, precisamente em maio de 1929, e após uma vistoria da Inspeção-Geral dos Teatros, que foi comunicado o encerramento do animatógrafo por falta de condições de segurança. Porém, esta ordem de encerramento não ditou o fim do cinema da instituição, ao invés, proporcionou a sua modernização.

Em assembleia geral extraordinária, foi decidido por unanimidade dos sócios, a compra do conjunto dos edifícios (do n.º 1 ao n.º 5 do Lg. do Calvário) à Nova Companhia Nacional de Moagens. A compra do prédio seria - "o único caminho viável para a continuação da nossa obra” 11. Com esta aquisição, a antiga sala de espetáculos foi demolida e parte do edifício foi reconvertido num cinema.

A SPEP inaugurou, em dezembro de 1930, a sua nova sala de cinema, com a designação de Cinema Promotora, após licença de utilização concedida pela Câmara Municipal de Lisboa e certificação passada pela Inspeção-Geral dos Espetáculos (IGE). O cinema estava localizado no Lg. do Calvário, números 4 e 5, tinha lotação de 468 lugares, distribuídos por 2 pisos. Com o êxito do cinema sonoro, marcado pela exibição do 1º «fonofilme português» - A Severa, de Leitão de Barros (1931), em agosto de 1931, o Cinema Promotora foi equipado com o sistema sonoro da Western Eletric Company. O Cinema Promotora esteve aberto ao público até finais dos anos 80 do séc. XX.

Sílvia Félix
Arquivo Municipal de Lisboa - Videoteca


1 Arquivo Municipal de Lisboa, Livro 3.º de Referências de Jornais (1915-1919). PT/AMLSB/SPEP/GACR/006/003, f.4V

2 O Theatograph foi inventado por Robert William Paul, esta máquina foi o primeiro projetor de filme de 35mm produzido comercialmente na Grã-Bretanha. A máquina foi utilizada no Real Coliseu em 1896 por Edwin Rousby - comercial na firma de Robert W. Paul. Edwin Rousby foi contratado para atuar no Real Coliseu pelo empresário deste espaço - António Manuel dos Santos Júnior.

3 Diário Ilustrado, N.º 8:351, de 18-06-1896. Disponível na internet (Biblioteca Nacional Digital): https://purl.pt/14328/1/j-1244-g_1896-06-18/j-1244-g_1896-06-18_item2/j-1244-g_1896-06-18_PDF/j-1244-g_1896-06-18_PDF_24-C-R0150/j-1244-g_1896-06-18_0000_1-4_t24-C-R0150.pdf [Consult. 02-03-2021]

4 A SPEP é uma sociedade de ensino com sede em Alcântara. Foi fundada a 30 de setembro de 1904 por cidadãos de Alcântara, membros do Partido Republicano. A sociedade nasce com a missão de instruir e educar as classes populares. Para este fim, promoveu aulas de instrução primária para adultos e crianças, com vista à sua alfabetização, bem como, atividades culturais e recreativas. Em 1931 foi atribuído à SPEP o alvará de licença de ensino, para escola de primeiro ciclo do ensino básico. A primeira sede da sociedade foi instalada na Rua Conselheiro Nazareth, n.º 25, R/C; em 1905 a sociedade transfere a sede para a Rua de Alcântara, n.º 125 (6), 2.º, onde fundou a sua 1ª escola; em 1912 a sede passou para o Largo do Calvário, n.º 6, 1º. Atualmente a sede localiza-se no Largo das Fontaínhas n.º 19, onde funciona a escola de primeiro ciclo do ensino básico.

5 Os primeiros projetores foram um Gaumont Chrono Cruz de Malta e um Pathé Reforçado. Em 1928 foi adquirido um projetor AEG. Em 1931 (com a instalação do cinema sonoro) foi adquirido um projetor Ernemann.

6 No animatógrafo o risco de incêndio era frequente, quer devido ao funcionamento dos projetores, com lanternas alimentadas por carvão e que necessitavam de fortes correntes elétricas, quer pela composição das fitas que continham nitrato de celulose, substância inflamável.

7 Veja-se a este propósito o decreto n.º 13:564 de 06-05-1927 do Ministério da Instrução Pública, sobre a Inspeção-Geral dos Teatros. In Diário do Governo n.º 92/1927, Série I, de 1927-05-06, p.608-704. Disponível na internet: https://dre.pt/application/conteudo/467443 [Consult. 02-03-2021].

8 A Inspeção-Geral dos Teatros (1836-1929) passou a Inspeção-Geral dos Espetáculos (IGE) pelo decreto n.º 17:046-A 29-06-1929, passou da tutela do Ministério da Instrução Pública para a tutela do Ministério do Interior.

9 A Capital: diário republicano da noite, N.º1671 de 31-03-1915. Disponível na internet: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/Acapital/1915/Marco/Marco_master/ACapitalN1641aoN1671.pdf [Consult. 02-03-2021].

10 A SPEP atribuía entradas grátis no animatógrafo aos alunos das escolas da freguesia e aos dirigentes de coletividades de Lisboa.

11 Arquivo Municipal de Lisboa. Livro de atas de sessões da direção (1927-1931). PT/AMLSB/SPEP/CROS/002/001, f. 57V



Fontes e bibliografia

ACCIAIUOLI, Margarida - Os Cinemas de Lisboa: um fenómeno urbano do século XX. Lisboa: Editorial Bizâncio, 2012.

Arquivo Municipal de Lisboa, Livro de atas de sessões da direção (1914-1919). PT/AMLSB/SPEP/CROS/002/0006

Arquivo Municipal de Lisboa, Livro de atas de sessões da direção (1927-1931). PT/AMLSB/SPEP/CROS/002/0011

Arquivo Municipal de Lisboa, Livro 3.º de Referências de Jornais (1915-1919). PT/AMLSB/SPEP/GACR/006/003


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