Maio 2021

 
 
 

Cartazes publicitários na coleção do Arquivo Municipal de Lisboa

[Porto Sandeman. No verso, informação da censura ortográfica em 12 de maio de 1949] Cota: CAR DL C2294[Porto Sandeman. No verso, informação da censura ortográfica em 12 de maio de 1949] Cota: CAR DL C2294

Título: Porto Sandeman

Data: impresso em 1947

Cota: CAR DL C2294

Os cartazes são meios de comunicação que permitem uma rápida transmissão da mensagem, tendo sido utilizados ao longo do tempo, para os mais diversos fins.
Na coleção do Arquivo Municipal de Lisboa é possível consultar um conjunto variado de cartazes publicitários dos anos de 1939 e 1949, utilizados na promoção de vários tipos de atividades e produtos como bebidas, produtos de beleza, de higiene ou de limpeza, vestuário, saúde e tabaco entre outros.

O cartaz comercial ou publicitário está relacionado com as atividades económicas, serviços e atividades lucrativas, a fim de promover o consumo. Qualquer que seja a sua categoria, o cartaz procura ter um impacto psicológico, impelindo o público para uma ação, quer seja ouvir, votar, participar ou comprar, sofrendo transformações e adaptações ao longo do tempo, de modo a corresponder às exigências desse público.

De um modo geral, a sua evolução está em sincronia com as necessidades de comunicação, desenvolvendo-se ao ritmo dos movimentos artísticos e relacionando-se diretamente com o avanço dos sistemas de impressão.

O cartaz tal como o conhecemos atualmente, surgiu em meados do século XIX. Com a invenção da litografia1 em 1796, por Aloys Senefelder (1771-1834), tornou-se possível produzir cartazes de forma rápida com maior qualidade e quantidade, assim como reproduzir imagens de grandes dimensões. O cartaz publicitário nasceu, quando Jules Chéret2 produziu o seu primeiro trabalho a cores, a partir do processo litográfico, para a ópera Orphée aux Enfers em 1866.

No final do século XIX a técnica da litografia expande-se por toda a Europa. Neste período, um grupo de artistas franceses, nomeadamente Jules Chéret, Henri de Toulouse-Lautrec, Eugène Grasset e Pierre Bonnard, entre outros, vão ajudar a lançar e incrementar a utilização do cartaz. Por sua vez, o desenvolvimento dos processos litográficos veio fomentar o crescimento das artes gráficas e da publicidade, dando origem a uma nova classe, o desenhador-litógrafo. Em Portugal o domínio da tecnologia litográfica dá-se na transição entre o século XIX e o século XX. De um modo geral a evolução do cartaz português, espelha a história do design gráfico em Portugal e na primeira década do século XX, não se diferencia dos movimentos que se desenvolvem na Europa, sendo o reflexo dos mesmos, embora com algumas particularidades técnicas, sociais e geográficas.

Em Portugal o cartaz foi principalmente textual e só depois de se radicar como expressão visual passou a integrar texto e imagem num mesmo registo. A partir da implementação da República (1910) e até à consolidação ideológica do Estado Novo, assiste-se ao despertar do modernismo em vários setores de atividade, nomeadamente na arquitetura e na propaganda.

Nas décadas de 1930 e 1940, o cartaz vai contemporizar com os padrões do Estado Novo na divulgação da sua ideologia baseado na trilogia de valores, nomeadamente Deus, Pátria e Família. Por sua vez, a censura que em Portugal teve início em 1926, durante o Estado Novo atinge o seu auge; restringe a liberdade de imprensa, proíbe a produção de conteúdos culturais e artísticos e passa a controlar a literatura, o teatro, a rádio, e o cinema.

Do cartaz selecionado, sobressai a imagem de Sandeman, "The Don”, o emblemático ícone da Companhia, criado em 1928 por George Massiot-Brown, como símbolo da identidade ibérica da Sandeman. É uma das imagens de marca mais icónicas no ramo de bebidas. O "Don” aparece representado por um estudante português, de capa negra e sombrero espanhol. É reconhecido em todo o mundo, como um símbolo de prestígio.

Para uniformizar todos os letreiros existentes na via pública foi aprovado em sessão de Câmara de 23 de Setembro de 1933 "que de futuro se não passasse licença alguma para letreiros sem, previamente, a respetiva requisição ser submetida à aprovação da Censura Ortográfica funcionando na Secção de Propaganda do Pelouro dos Serviços Culturais” (Anuário, 1935, p. 239).

Encontre este ou outros cartazes publicitários no catálogo bibliográfico do Arquivo Municipal de Lisboa.

Otília Esteves
Arquivo Municipal de Lisboa



1 Do grego Lithos (pedra) [...] a Litografia baseia-se na repulsão entre a água e as substâncias gordurosas. A matriz (pedra calcária de grão fino) é desenhada com um lápis gorduroso (lápis litográfico). Posteriormente, a pedra recebe uma solução de goma-arábica e ácido nítrico para que o desenho se fixe na superfície da pedra. Com isso, as zonas que não tem o desenho rejeitam a tinta de impressão. [...] São muitos os artistas que trabalharam com litogravura, entre eles destacam-se: Lautrec, Miró, Picasso e Matisse. [...] (Feliz, 2010 p.6).


2 Jules Chéret (litógrafo francês 1836-1932, considerado como o pioneiro do cartaz moderno) […] Desenvolveu um tipo mais barato de litografia de cores, que permitiu que os litógrafos obtivessem uma ampla gama de cores a partir de três pedras, e dessa forma foi possível produzir os cartazes a baixo custo. […] A marca de seus cartazes era transmitida pela presença de mulheres alegres, elegantes e animadas, que acabaram por ser nomeadas de "cherettes”, pelos parisienses, contribuindo assim para o sucesso do seu trabalho. […] (Abreu, 2011, p. 7).




Bibliografia:

ABREU, Karen Cristina Kraemer - Cartaz publicitário: um resgate histórico [Em linha]. Comunicação apresentada no VIII Encontro Nacional de História da mídia. Rio Grande do Sul, 2011. [Consult. 08.03.2021]. Disponível na Internet: http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-nacionais/8o-encontro-2011 1/artigos/Cartaz%20publicitario%20um%20resgate%20historico.pdf/view

ANUÁRIO DA CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA [Em linha]. Lisboa: Câmara Municipal. Ano 1 Volume 1 (1935), p. 239. [Consult. 08.03.2021]. Disponível na Internet: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/Anuario/1935_I/1935_I_master/AnuarioCML_1935-1.pdf

ALMEIDA, Victor - O Design em Portugal, um Tempo e um Modo: A institucionalização do Design Português entre 1959 e 1974 [Em linha]. Lisboa: [s.n.], 2009 – Tese de Doutoramento em Design de Comunicação. [Consult. 12.03.2021]. Disponível na Internet: https://repositorio.ul.pt

BARBOSA, Maria Helena Ferreira - Uma história do design do cartaz português do século XVII ao século XX [Em linha]. Aveiro: Universidade de Aveiro Departamento de Comunicação e Arte, 2011.Tese de doutoramento em Design. [Consult. 05.03.2021]. Disponível na Internet: https://ria.ua.pt

FELIZ, J. - Gravura artística [Em linha]. [Consult. 08.03.2021]. Disponível na Internet: http://docplayer.com.br/14769327-Http-www-gravurarte-hpg-com-br-historicohtm.html

FRAGOSO, Ana Margarida de Bastos Ambrósio Pessoa – Formas e expressões da comunicação visual em Portugal: contributo para o estudo da cultura visual do século XX, através das publicações periódicas [Em linha]. Lisboa: Universidade Técnica, 2010. Tese de doutoramento em Design. [Consult. 16.03.2021]. Disponível na Internet: https://www.repository.utl.pt

HENRIQUES, Ana Rita Luís - Fred Kradolfer.1903-1968. Designer gráfico influenciador e influenciado em Portugal [Em linha]. Lisboa: FA, 2011. Tese de Mestrado em Design de Comunicação. [Consult. 24.03.2021]. Disponível na Internet: https://www.repository.utl.pt

JULES Chéret: biography 1836-1932 [Em linha]. [Consult. 08.03.2021]. Disponível na Internet: https://www.contessagallery.com/artist/Jules_Ch%C3%A9ret/biography

REMÉDIO, Maria Margarida Rodrigues - A lição de Salazar e a iconografia do Estado Novo: contributo para a História da Educação em Portugal (1933-1939) [Em linha]. Lisboa: Faculdade de Letras Departamento de História, 2013. Tese de mestrado em Didáctica da História. [Consult. 24.03.2021]. Disponível na Internet: https://repositorio.ul.pt

SANDEMAN gallery: the Don [Em linha]. [Consult. 02.03.2021]. Disponível na Internet: https://www.sandeman.com/history/


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