Março 2016

 
 
 
 
PT/AMLSB/NEV/000949
PT/AMLSB/NEV/000950
PT/AMLSB/NEV/000951


Cores, imagens e palavras: o mural de propaganda política

Descrição: Mural de propaganda eleitoral a Ramalho Eanes
Local: Instituto Superior Técnico, Lisboa 1976
Código de referência: PT/AMLSB/NEV/000949, 000950 e 000951


Em Portugal, a grande explosão da utilização do espaço público urbano como suporte pictórico para escritos políticos ou sociais ocorreu com a extraordinária dinâmica após a revolução de 25 de Abril de 1974. A cidade tornou-se o espaço físico de eleição onde a contestação e reivindicação adquiriram visualidade através de escritos, desenhos e pinturas públicas. Paredes, portas, muros, e mobiliário urbano diverso foram apropriados como plataforma do combate político, mas também como espaço onde a sociedade civil podia exprimir as suas exigências ou protestos, angústias e esperanças.

A partir de abril de 1974, as reivindicações foram as mais variadas: o fim da guerra colonial, o regresso da tropa, a solidariedade com outros povos e nações, a nacionalização de empresas, o saneamento de administradores, a prisão de colaboracionistas, transformações sociais e políticas, a indignação com a interferência estrangeira, o aumento dos vencimentos, a semana de 40 horas, o 13º salário, o apelo à greve, e sobretudo, a convocação à participação em manifestações de índole diversa.

E a cidade tornou-se o espaço visual da contestação, foi o suporte para a visualidade do sonho e da crítica. Pelo seu cariz de execução e carácter de apelo, as pinturas murais foram criadas, na sua maioria, por artistas plásticos, e obedeciam a formulações estéticas que se vinculavam a escolas de pensamento artístico e a matrizes iconográficas. Das mais pequenas e improvisadas, quase em esquisso, com traços rápidos, imperfeitos e inacabados, até aos grandes murais de complexa execução, obras coletivas de estética planeada, reminiscentes dos murais neorrealistas mexicanos do princípio do século XX, todos eles constituem um património urbano efémero pela distância que o tempo acaba por impor às emoções e aos sentimentos. E a cidade é um organismo vivo, em mutação, e essa distância favorece a remoção e transformação da paisagem urbana.

Para além dos slogans e palavras de ordem, dos apelos ou denúncias, da assertividade e das metáforas e hiperbolizações, da ironia e do sarcasmo, as gramáticas pictóricas e as técnicas visuais – o cromatismo, a iconografia, o traço, a composição – denunciavam filiações e correspondências estéticas e políticas.

Foi no clima social e político pós-PREC que se criou o extenso mural de pintura na parede sudeste do Instituto Superior Técnico de Lisboa, na Avenida Manuel da Maia. Não por acaso, o IST era palco recorrente de manifestações e plenários estudantis, onde pontificavam as forças mais à esquerda do espectro político. Assim se enquadrou a realização desta pintura mural figurativa de grandes dimensões, de autoria desconhecida, coletiva certamente, da responsabilidade do MRPP e filiada na estética visual propagandística do maoísmo chinês da década de 1960.

A composição era clarividente e a sua leitura óbvia na mensagem propugnada. O painel pode ser dividido em três espaços, a que correspondem outras tantas ações e idealismos. Cada um destes setores é ilustrado por uma mensagem, a qual equivale a uma posição política, exposta numa tarja empunhada pela multidão. A massa popular, indistinta num aglomerado, não está passiva, reage e age sobre outros atores.

Entendida como representação sintética do povo, a multidão está retratada de forma a ilustrar a sua vitalidade e heterogeneidade social, género, idade e atividade. Por isso, podem-se identificar o militar, a doméstica, o trabalhador agrícola, a camponesa, o jovem, o operário, o estudante, o polícia ou a criança, enquadrados num fundo, também ele estereotipado, com a cidade, a fábrica, e o campo.

Na secção à esquerda, a multidão hostiliza ostensivamente um grupo de militares dos SUV. A frase de ordem é "Pela Liberdade”. Na secção central, as pessoas estão atentas a um orador de braço e dedo em riste, a apontar para a frase "Pela Democracia”. Na secção à direita entrevê-se uma confrontação, na qual algumas personagens, enquadradas pela frase "Pela Independência Nacional”, espezinham figuras prostradas no chão. Todos estes atos ocorrem na rua. Mas, o mural não se esgota na composição figurativa acabada de descrever. Nas duas extremidades encontra-se o enquadramento que explicitava o propósito do mural. À direita, o busto pintado do general Ramalho Eanes, e à esquerda, em letras vermelhas sobre fundo amarelo, duas palavras: "Vota Eanes”.

O conjunto ganha então o seu sentido completo, estava-se no período de campanha eleitoral às eleições presidenciais de 1976. A 12 de junho iniciou-se a campanha com os candidatos militares Ramalho Eanes, Otelo Saraiva de Carvalho e Pinheiro de Azevedo, e o civil Octávio Pato do PCP. Quinze dias depois consumava-se a eleição de Ramalho Eanes à primeira volta, com cerca de 62% de votos, eleito como primeiro presidente da República em sufrágio livre e universal.

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Bibliografia:                                                                                        Multimédia:

CEREZALES, Diogo Palacios – O poder caiu na rua. Crise de Estado e acções colectivas na Revolução Portuguesa (1974-1975). Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2003.

FERREIRA, José Medeiros – Portugal em Transe (1974-1985). In José Mattoso (dir.) – História de Portugal, vol. 8. Lisboa: Estampa, 1994.

ROSAS; Fernando (coord) – Portugal e a transição para a Democracia (1974-1976). Lisboa: Colibri, 1999.

SCHMITTER, Phillipe – Portugal: do Autoritarismo à Democracia. Lisboa: INCM, 1999.


CALDEIRA, Alfredo, MARQUES, Carlos – Os murais de Abril. Disco óptico CD-ROM. Lisboa: Fundação Mário Soares / Creatix, 2005.



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