Março 2020

 
 
 

Convento de Mafra: um projeto e uma obra superlativos
Contributo para o estudo do abastecimento aos operários da obra

Aviso sobre o fornecimento de mantimentos aos operários da obra de MafraAviso sobre o fornecimento de mantimentos aos operários da obra de Mafra - verso

Título: [Aviso sobre o fornecimento de mantimentos aos operários da obra de Mafra]
Data: 1729-07-18
Código de referência: PT/AMLSB/CMLSBAH/CHR/010/0049/0145

Obra maior do barroco português, com uma escala superlativa sem paralelo na arquitetura portuguesa, o Real Edifício de Mafra, ou seja, o complexo convento, palácio real e basílica, foi erigido na primeira metade do século XVIII, no reinado de D. João V e por vontade inexorável do próprio monarca.

Consagrou a lenda que, em 1711, D. João V outorgou licença para a construção de um convento dedicado a Santo António, nas terras da vila de Mafra, para os frades capuchos da Arrábida, num total de treze religiosos, por via de um voto, se agraciado com um descendente do matrimónio com a rainha D. Maria Ana de Áustria. No quadro português setecentista, o problema da sucessão era fulcral, pois uma crise sucessória colocaria de novo o reino perante problemas políticos complexos. Certo é que o desígnio régio começou a ganhar contornos, após a confirmação da gravidez da rainha e do expectável nascimento da primogénita princesa D. Maria Bárbara (futura rainha de Espanha por via do casamento com o Bourbon Fernando VI).
Depois das diligências destinadas à materialização do plano régio, as obras do projetado convento iniciaram-se com faustosa cerimónia solenizada pelo cardeal patriarca de Lisboa, e com o lançamento da primeira pedra perante a presença do monarca e da corte, em 17 de novembro de 1717, estendendo-se até à década de 1740, durante a qual ainda se terminavam algumas secções e pormenores.

A extensão temporal da sua construção deveu-se ao sucessivo engrandecimento e ambição das ideias que subjazeram ao projeto inicial com o reflexo na extensão da planta. Com efeito, de treze religiosos, o plano evoluiu para quarenta, depois oitenta, acabando por se estabilizar num monumental edifício destinado a 300 franciscanos capuchos arrábidos, que inclui um palácio real e uma basílica, com planta do arquiteto alemão João Frederico Ludovice, ou Johann Friedrich Ludwig, e a participação de mestres portugueses, como os escultores José de Almeida e Manuel Dias, o pintor Francisco Vieira Lusitano, o arquiteto Eugénio dos Santos, ou ainda o engenheiro-militar Manual da Maia. Em 1730, treze anos após o início da construção, e quando se deram por terminadas as obras principais, a estrutura foi oficialmente inaugurada com o cerimonial, pompa e circunstância devidos por um período de oito dias.

Afinal, se D. João V era um monarca na senda do absolutismo esclarecido que desejava a equiparação entre pares europeus, pautado pela riqueza, ilustração, grandiosidade e poder em acordo com a imagem política que desejava projetar, o Real Edifício foi a obra material, a expressão religiosa e cultural dessa mesma grandiosidade e riqueza, um símbolo de excelência, espelho do poder absolutista do rei – simbolicamente ambivalente porque reuniu, num espaço ímpar de fausto e magnificência, o ascetismo da ordem dos frades capuchos – só possível porque alimentada pela imensa riqueza que as minas de ouro do Brasil providenciavam desde a primeira década do século.

Fazendo jus ao excesso e à grandiosidade característica do barroco, os números são colossais: construção em mármore, calcário e lioz português sobre uma área de cerca de 40.000 m2, e uma fachada de 232m, interiores em madeiras exóticas, 4500 portas e janelas, 1200 divisões entre as quais 880 salas, 29 pátios, uma basílica com duas torres de 68 metros de altura e 114 sinos, onze capelas e cerca de 450 esculturas.
Fundidos em Antuérpia e Liège, os sinos de dimensões várias pesam, em conjunto, cerca de 217 toneladas. A biblioteca albergou, mais tarde, cerca de 40.000 livros, com encadernações em couro e gravações em ouro. Pelas salas e corredores, encontravam-se incontáveis obras artísticas em pintura e escultura encomendadas na Europa, sobretudo, em França, Flandres e Itália, bem como, preciosos paramentos e alfaias diversas para o serviço religioso.

Nos 25 anos até à conclusão definitiva do empreendimento, foram dezenas de milhares os operários e artesãos de todas as especialidades (pedreiros, pintores, escultores, entalhadores) que diariamente trabalharam sobre as ordens de mestres e arquitetos. Muitas vezes arregimentados de forma compulsiva, sob a vigilância dos soldados do reino, e coagidos sob pena de pesadas punições, estavam sujeitos a condições pouco recomendáveis, expostos à doença e a acidentes, de que muitos incógnitos padeceram e foram vítimas.

O documento do mês que agora se introduz, diz respeito à face menos visível do ilustre empreendimento régio. Se os números que caracterizam a obra feita impressionam, é preciso lembrar que também a logística associada ao suporte e garantia dos trabalhos foi, certamente, e por reflexo da magnitude da obra, impressionante. Só em 1730, ano da sagração da basílica, calculou-se em 45.000 os operários envolvidos na obra, número que teve variações significativas conforme os diferentes estádios e necessidades ao longo da sua construção. Os desafios eram ciclópicos e, para garantir a permanência e subsistência de trabalhadores e o ritmo dos trabalhos, foi necessário planear uma cadeia de abastecimento de víveres de forma a assegurar o fornecimento de provisões.

Datado de 18 de julho de 1729, assinado pelo Secretário de Estado Diogo de Mendonça Corte Real, e dirigido ao escrivão da Câmara de Lisboa, Manuel Rebelo de Palhares, este breve documento revela-nos a identificação de um problema, a ordem que se pretendeu executar para a sua resolução, e o planeamento para a sua exequibilidade.

Doze anos após o início da obra, D. João V havia resolvido que "para Mafra fosse muita gente de trabalho, além da que já lá andava” – e atente-se ao determinante quantitativo –, certamente porque se desejava a sua conclusão o mais breve possível, pois a basílica haveria de ser sagrada pouco mais de um ano depois, a 22 de outubro de 1730.
Mas o acréscimo de muitos trabalhadores implicaria várias operações de logística, entre as quais resolver o problema fundamental da subsistência no local e, portanto, seria "necessário ter naquele sitio viveres prontos”.
Apesar de relativa proximidade a Lisboa, Mafra era, no século XVIII, uma pequena vila com algumas centenas de vizinhos, dispersa em casarios, e não dispunha de capacidade para organizar, suportar e gerir os meios necessários e suficientes para o enorme esforço logístico de abastecimento.

Por isso, se entende o propósito deste aviso, e da única solução possível: o deslocamento de meios humanos e materiais de Lisboa para Mafra, que detivessem a experiência e a capacidade de providenciar o abastecimento. Assim, o rei determinava que "os Senados obriguem athe trinta ou quarenta pessoas, que nestas cidades costumão vender os ditos viveres, e ter cazas de comer, se vão estabelecer naquela vila athe amanha, para nellas venderem os ditos mantimentos”. E os mesmos Senados – Oriental e Ocidental de Lisboa – deveriam mandar "hua relação das pessoas que vão”, de forma a que "o Superintendente lhe dê os cómodos necessários”. Esta instrução final estabelece a condição necessária à exequibilidade da operação, procurando garantir a sua eficiência, e todas as demais condições pertinentes para se cumprirem as ordens reais.

Em última instância, e apesar da sua importância, esta foi apenas uma das várias dimensões de uma complexa operação, menos visível, mas não de somenos importância, inerentes ao planeamento e construção de empreendimentos singulares, de que é exemplo o Real Edifício de Mafra na primeira metade do século XVIII.

Encontre este ou outros documentos na base de dados do Arquivo.

Nuno Martins
Arquivo Municipal de Lisboa



pesquisa
 
AGENDA