Março 2021

 
 
 

Remodelação da Avenida da Liberdade (1955-1958): a visão de Gonçalo Ribeiro Telles

[Anteprojeto do estudo de remodelação da avenida da Liberdade] data: 1955-07-23 - 1958-03-12 - PT/AMLSB/CMLSBAH/PURB/002/05202


Título: [Anteprojeto do estudo de remodelação da avenida da Liberdade]
Código de referência: PT/AMLSB/CMLSBAH/PURB/002/05202
Datas: 1955-07-23 - 1958-03-12


Recordando Gonçalo Ribeiro Telles (1922-2020), falecido em novembro do ano passado, apresentamos este mês um contributo para rememorar a visão ecológica que sempre colocou nas suas propostas para o meio urbano.
Formado no Instituto Superior de Agronomia (ISA) em Engenharia Agrónoma, e no curso livre de Arquitetura Paisagística, 1952, Gonçalo Ribeiro Telles teve um percurso como político, docente universitário, e arquiteto paisagista. Exerceu ainda intensa atividade cívica sensibilizando a opinião pública e os poderes políticos para uma consciência ecológica. Obteve reconhecimento pelas propostas de políticas ambientais, criando a Lei de Bases do Ambiente, as zonas protegidas das reservas agrícola e ecológica nacionais, os Planos Regionais de Ordenamento do Território, e o quadro regulamentar dos Planos Diretores Municipais, entre outras.

Ribeiro Telles iniciou a atividade profissional na Câmara Municipal de Lisboa (CML), em 1951, na 3ª Repartição de Arborização e Jardinagem. Em 1953 desempenhou funções como engenheiro agrónomo, e de 1955 a 1960 como arquiteto paisagista no Gabinete de Estudos de Urbanização. Entre 1971 e 1974, dirigiu o Setor de Planeamento Biofísico e de Espaços Verdes do Fundo de Fomento da Habitação. Desde 1998, no âmbito de protocolos entre a CML, a Universidade de Évora e o ISA, assegurou funções de coordenador geral no Gabinete da Presidência do município lisboeta1.

Se o projeto que executou para os jardins da Fundação Calouste Gulbenkian é um marco da visão integradora do espaço ecológico numa estrutura urbana – assinado em coautoria com António Barreto, obteve ex aequo o Prémio Valmor de 1975 – muitos outros projetos que idealizou merecem que os recordemos. Em alguns dos casos, intervencionou espaços urbanos dotando-os de uma envolvente paisagística integrada no contexto local, noutros, e na sua perspetiva, seriam projetos transformadores da estrutura ecológica urbana, projetando corredores verdes de modo a cidade ser um organismo ecologicamente equilibrado e sustentável2.

Esta visão integrada, que concebe a cidade como organismo ecológico e social, refletiu-se na implementação da estrutura verde no PDM de Lisboa. Ao concluir o Plano Verde de Lisboa, incluindo a criação de um corredor verde3 , promoveu a integração do património histórico, cultural e paisagístico da cidade.
Cada vez mais na agenda pública, várias iniciativas têm contribuído para a sensibilização, transição e inovação do desenvolvimento urbano ecologicamente integrado, de que é exemplo a distinção Lisboa Capital Verde Europeia 2020, graças a um conjunto de indicadores que visaram avaliar a sustentabilidade urbana. Neste âmbito, o Arquivo Municipal de Lisboa organizou o primeiro Festival Ecovídeo Lisboa Natura 2020 apelando aos olhares, inquietações e vivências sobre a natureza no meio urbano4.

No que respeita ao trabalho desenvolvido por Gonçalo Ribeiro Telles na CML, são inúmeros os projetos que se podem encontrar no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa5. Em 1955, a CML decidiu submeter a avenida da Liberdade, eixo viário emblemático da cidade, a uma renovação profunda, o que implicava a alteração do traçado viário, a substituição de pavimentos, a mudança da configuração dos jardins e zonas pedestres, e a substituição de espécimes arbóreos existentes. Este projeto articulava-se com as obras para a construção do metropolitano de Lisboa.

É, pois, sobre esta obra de vulto que se apresenta o documento deste mês. Trata-se de um documento com 117 folhas e compreende o anteprojeto, um conjunto de estudos parcelares para a remodelação da avenida e da praça Marquês de Pombal, um plano coordenador das obras da rotunda, imagens da projetada maquete, plantas de escalas diversas, vários desenhos das diferentes artérias e, ainda, um parecer do vereador Francisco Ribeiro Ferreira. Inclui também o projeto de arborização e ajardinamento de todo o eixo da avenida da Liberdade, da autoria de Gonçalo Ribeiro Telles – de onde foi selecionada a imagem acima localizada na página 79, que mostra, em desenho, a visão inovadora do arquiteto, ao separar o passeio dos arruamentos laterais através de arbustos e árvores, de forma a isolar esta área do trânsito no eixo central e do estacionamento em espinha.

Na memória descritiva, datada de agosto de 1955, Ribeiro Telles alertava para a "falta de critério na atual distribuição das espécies vegetais”, as "doenças, as deficientes condições de vida vegetativa e a dificuldade em prever determinados efeitos a longo prazo”, para além da inexistência de "qualquer razão de ordem estética ou biológica para que se encontrem as placas duas a duas povoadas com espécies de porte, volume e cor totalmente diferentes”. Estas razões, aliadas ao "aumento do grau de compactação das terras (...) ocasionado pela contínua passagem de veículos, cada vez com maior peso, o asfalto e as impermeabilizações provocaram o enfraquecimento das árvores e o consequente ataque de inúmeras doenças”6.

Portanto, tornava-se fundamental a substituição das espécies arbóreas, por se encontrarem em processo de decadência, por serem inadequadas ao ambiente urbano, e por estarem a causar danos no pavimento. Depois de sustentar em vários pontos o plano de intervenção, concluía que "o próprio desenvolvimento em alameda de toda a composição, além de manterem e enriquecerem as suas características, valorizarão a artéria no que ela tem de original e magestoso”7. Apesar da renovação da avenida ser um momento transformador da cidade, numa artéria central e simbólica, são de assinalar alguns episódios que suscitaram opiniões contrárias ao projeto, causando um certo furor na opinião pública e reações na imprensa e originando calorosas argumentações.

Neste documento encontra-se uma carta de julho de 1955, de um indignado cidadão, que se intitulava de "adepto firme, intransigente e já encanecido do Estado Novo e um ferrenho salazarista”, dirigida ao diretor do jornal Diário Popular, onde expunha vigorosos argumentos contra as obras previstas, apelando para a publicação da sua carta naquele diário8. Nesta, escreveu que Lisboa estava "sob a ameaça de dois verdadeiros atentados ao bom senso e ao bom gosto"9, alegando que "a mais bela artéria de Portugal e uma das mais formosas da Europa” se transformaria, durante as obras, numa "espécie de campo de batalha”10. Particularizando em relação às árvores existentes, com alguma ironia, argumentava que por vezes dispensava-se "respeito e a correlativa preservação a uma única árvore, que chega a ser declarada de interesse público, e vão-se agora sacrificar não algumas (...) mas muitas centenas, entre as quais aqueles veneráveis ulmeiros do tempo do antigo passeio público?”11. E propõe a realização de obras subterrâneas e a circulação alternativa do trânsito para as faixas laterais, para não "mutilar” as placas e o mosaico do chão, causar menor impacto ao turismo, e em salvaguarda dos lisboetas, que, defendia, "os pobres dos peões tornaram-se, no nosso tempo, uns piões das nicas. O pior é que as nicadas que levam são quase sempre... de matar!”12.

A polémica estender-se-ia ao grupo Amigos de Lisboa, com um parecer sobre "o momentoso problema da Avenida da Liberdade”, provocando uma resposta do vice-presidente da CML, Luís Pastor de Macedo, em defesa da intervenção e refutando o parecer, pois "não se deve ser mais amigo da Avenida da Liberdade, que Amigo de Lisboa”13.

Os obstáculos levantados, bem como o necessário tempo administrativo e político para a condução e preparação do plano, refletem-se no projeto de 1956, revisão do anterior. Neste, Ribeiro Telles reforça a tese da memória descritiva no que respeita às espécies vegetais, e alerta para a "falta de vigor vegetativo, as extensas e numerosas cáries do tronco, as copas reduzidas com frequência a metade ou mesmo a um terço”, e vaticina que "em dez anos morreriam todas as árvores existentes”14.

A rematar, Ribeiro Telles demonstra um conhecimento profundo dos problemas associados aos espécimes vegetais, afirmando que "teremos de ser muito exigentes quanto à qualidade das plantas (...) para as árvores não bastará a garantia da espécie, mas será necessário que além de uma formação conveniente, apresentem uniformidade de diâmetros e nos dêem garantia, quer pela qualidade da semente quer pelos clones de que provem e pela natureza dos ramos utilizados para a multiplicação, de que o seu desenvolvimento será uniforme e óptimo”15.

Se nos dias de hoje, estes problemas e alertas seriam objeto de atenção, na década de 1950 geraram críticas e pressões contrárias à renovação da avenida. Apesar de o presidente da CML, o coronel Salvação Barreto, ter suportado os primeiros planos de intervenção paisagística, já o general França Borges, que lhe sucedeu, foi de encontro às críticas e impôs a Ribeiro Telles a execução de um novo projeto mantendo o desenho da avenida. Ribeiro Telles recusou-se a cumprir essa imposição e foi demitido em 1960.

Encontre este ou outros documentos sobre o mesmo assunto na base de dados do Arquivo.

Denise Santos
Arquivo Municipal de Lisboa



1 Sobre a vida e obra ver TELLES, Gonçalo Ribeiro – A utopia e os pés na terra: [catálogo]. Lisboa: Instituto Português de Museus, 2003. Para uma seleção da sua autoria ver TELLES, Gonçalo Ribeiro – Gonçalo Ribeiro Telles: textos escolhidos. Lisboa: Argumentum, 2016.

2 Apesar de Lisboa ter sido o grande objeto da sua atenção e trabalho, Ribeiro Telles executou muitos outros projetos em municípios de todo o país.

3 O projeto estabeleceu a ligação, por meio de um corredor contínuo de vários tipos de vegetação, que se prolonga desde a praça dos Restauradores, desenvolve-se pela avenida da Liberdade, parque Eduardo VII, jardim Amália Rodrigues, relvados do Palácio da Justiça de Lisboa, parque Ventura Terra, Jardins dos Jogos, Jardins de Campolide, Universidade Nova de Lisboa e Quinta José Pinto, até ao parque Florestal de Monsanto.

4 https://lisboagreencapital2020.com (Lisboa Capital Verde Europeia 2020); http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/pt/eventos/lisboa-natura-2020 (Festival Ecovídeo de Lisboa).

5 Entre muitos outros, encontram-se estudos de urbanização e circulação da praça de Espanha, vários projetos de jardins privados e espaços verdes públicos, como da praça do Santo Condestável, de São Pedro de Alcântara, do jardim Nove de Abril, de arborização e ajardinamento da encosta da praça do Ultramar, de arborização do triângulo compreendido entre o bairro de Alvalade, a avenida do Brasil e a avenida do Aeroporto, ajardinamento das placas da avenida do Restelo, remodelação da placa da rotunda do aeroporto, remodelação da Estufa Fria, arborização e a jardinagem das avenidas de Roma, dos Estados Unidos da América, do Aeroporto e Rio de Janeiro, encosta do Restelo e Capela de São Jerónimo, espaços verdes públicos do bairro de Santa Cruz, enquadramento arbóreo da Igreja de São João de Brito, ou o ajardinamento no largo de Santos. Para além de projetos há ainda um vasto número de fotografias e a peça videográfica 4X Gonçalo Ribeiro Telles - conversa com João Nunes (2002).

6 Arquivo Municipal de Lisboa, PT/AMLSB/CMLSBAH/PURB/002/05202, f.4.

7 Arquivo Municipal de Lisboa, PT/AMLSB/CMLSBAH/PURB/002/05202, f.8.

8 Arquivo Municipal de Lisboa, PT/AMLSB/CMLSBAH/PURB/002/05202, f.58 a 65.

9 Para além da renovação da avenida da Liberdade, que segundo o autor da carta, se trataria da "pulverização da avenida”, o outro grande problema era a deslocação do porto de pesca para Pedrouços, junto à Torre de Belém. AML, PT/AMLSB/CMLSBAH/PURB/002/05202, f.59.

10 Arquivo Municipal de Lisboa, PT/AMLSB/CMLSBAH/PURB/002/05202, f.60.

11 Arquivo Municipal de Lisboa, PT/AMLSB/CMLSBAH/PURB/002/05202, f.64.

12 Arquivo Municipal de Lisboa, PT/AMLSB/CMLSBAH/PURB/002/05202, f.61 e 62.

13 Ambos publicados em Olisipo: Boletim trimestral do Grupo "Amigos de Lisboa”. A. XVIII N.º 72 (Outubro de 1955), p.135-144.

14 Arquivo Municipal de Lisboa, PT/AMLSB/CMLSBAH/PURB/002/05202, f.40 e 41.

15 Arquivo Municipal de Lisboa, PT/AMLSB/CMLSBAH/PURB/002/05202, f.44.



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