Novembro 2014

 
 
 
Águas Livres
 
Águas Livres

Descrição:
Alvará com orientações para o superintendente da obra das Águas Livres

Data: 12/05/1731

Cota:
Livro 7º de consultas e decretos de D. João V do Senado Ocidental, f. 67 a 68

A água sempre teve um papel particularmente importante na história de Lisboa, não só porque o rio Tejo teve um papel fundamental na sua génese e crescimento, mas também por ser um bem essencial.
A cidade dispunha de escassos recursos de água potável, obrigando a existência de algumas medidas para colmatar a sua carência. A importância da água é uma evidência e a maioria das primeiras cidades terá surgido perto de rios, para que fosse possível o fornecimento de água, para consumo próprio e dos animais, como para a irrigação dos campos de cultivo. Para além do seu consumo, era utilizada para defesa, saneamento e diversas manufacturas.
A organização do aglomerado vai ser condicionada pela própria acessibilidade à água, pelo seu escoamento e distribuição. Os pontos de acesso à água, como as nascentes ou poços, geram praças e largos dentro da cidade, necessários para facilitar o seu acesso.

É a importância atribuída aos pontos de acesso à água que fez surgir os chafarizes, para abastecimento de água à cidade, disponibilizando-a no seu espaço público. Estes chafarizes também possuíam uma componente ornamental, importante para a valorização do poder central e local.
Os chafarizes sempre tiveram uma função vital para a cidade, obra que sempre exigiu grande esforço e recursos. Hoje em dia, tornaram-se obsoletos, mas são equipamentos que se converteram em monumentos, continuando a serem importantes, como elementos da imagem da cidade.

Lisboa estava situada desde a sua fundação no alto da colina do castelo de S. Jorge, e aí se manteve até a Idade Média. Abastecia-se essencialmente da água que extraía dos poços ou de cisternas que recolhiam a água da chuva. No sopé da colina estavam as nascentes que originaram a maior parte dos chafarizes mais antigos da cidade. É na direção destas nascentes que se expandiu a cidade romana. Vários autores confirmam a construção de um aqueduto nesta altura, que trazia água de uma represa, construída para o efeito, em Belas. A queda da cidade romana terá levado a desativação deste aqueduto.

A Lisboa moura não dispunha de recursos de água suficientes dentro das suas muralhas. Até ao século XIV, as principais nascentes ainda se encontravam fora de portas. Por isso, aquando do cerco castelhano, em 1373, a principal causa de capitulação da cidade ao inimigo atacante, terá sido o esgotamento desse recurso. Talvez por esta razão, a muralha de Lisboa construída por ordem de D. Fernando, concluída em 1375, passou a incluir dentro dos seus limites o chafariz de São João dos Canos, também designado chafariz de El- Rei, desde as obras aí efectuadas por D. Dinis, bem como o chafariz dos Cavalos, ou de Dentro, que eram os de maior caudal.

Ao longo do século XV, foram feitas várias obras. Com D. João II aumentou-se o número de bicas no chafariz de El-Rei, tal como no chafariz dos Cavalos. Houve várias transformações, remodelações e melhoramentos, especialmente desde o reinado de D. Manuel até meados da segunda metade do século XIX. D. Manuel mandou ampliar a rede medieval de chafarizes ribeirinhos com um novo chafariz em Cata-Que-Farás e outro em Santos-o-Velho. Efetuou várias obras para melhorar o abastecimento de água à cidade e tentou introduzir água na cidade através de um aqueduto, desde o chafariz do Andaluz até ao Rossio, ou seja, a captação de água fora da cidade.

Poucos são os chafarizes de Lisboa anteriores ao século XVIII que chegaram até hoje. Os chafarizes de maiores dimensões, de configuração monumental, são o chafariz de El-Rei ou o chafariz de Apolo no Terreiro do Paço, desaparecido. Dos chafarizes mais pequenos e bicas temos a fonte Santa e o chafariz dos Paus, também desaparecido.

No século XVI, a zona ocidental da cidade, e sobretudo a mais alta, onde se inclui o Bairro Alto, zona mais recente e mais carenciada de água, levou a uma urgente resolução do problema de abastecimento de água em Lisboa. O aumento da população tornava premente o problema da água, pelo que sucederam-se várias tentativas para trazer a água das Águas Livres. Assim, Francisco de Holanda propôs uma medida inspirada nos romanos, de restituir à cidade, através de um aqueduto, as águas da zona de Belas, por serem muito abundantes. Este autor desenhou dois importantes chafarizes, um para o Rossio e outro para a ribeira das Naus, com o intuito de abastecimento das naus. O projeto de trazer a Água Livre de Belas a Lisboa não se concretizou neste reinado, como nos sucessivos reinados, talvez por dificuldades financeiras.

O problema da água continuou, apenas se assinala a construção do chafariz do Rossio ou do Neptuno, concluído em 1606 e do chafariz de Apolo, de 1655. O chafariz do Rossio ou de Neptuno segue a ideia iniciada com o reinado de D. Manuel de utilizar água de um aqueduto, com características monumentais, mas teve uma curta duração, sendo demolido com a reconstrução do Rossio, a seguir ao terramoto, em 1785. O chafariz de Apolo, no Terreiro do Paço tem uma curta duração, pois ruiu com o terramoto.

O problema da escassez da água mantinha-se e não parava de aumentar, especialmente para a zona do Bairro Alto. Só no reinado de D. João V houve grandes avanços no abastecimento de água à capital, com a construção do famoso aqueduto, denominado das Águas Livres, que começa próximo da ribeira de Carenque e termina no sítio das Amoreiras, em Lisboa. Esta construção foi iniciada em agosto de 1732.

O início do projeto foi por imposição e empenhamento de D. João V, como ficou expresso no alvará régio de 12 Maio de 1731, com indicações para se fazer um aqueduto que abastecesse a cidade de Lisboa, expropriando os terrenos que fossem necessários para a execução dessa obra.

D. João V ainda assistiu á chegada das águas a Lisboa mas faleceu em julho de 1750, sem presenciar em pleno o seu conceito de obra pública.

O aqueduto das Águas Livres constitui uma das maiores obras do reinado de D. João V e uma das contribuições deste monarca na reforma urbana da capital.


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