Novembro 2020

 
 
 


HÁ FADO EM LISBOA

[Fadista e guitarristas no Solar da Alegria, 194-] | PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/FEC/000281

                      Título: [Fadista e guitarristas no Solar da Alegria]
                      Código de referência: PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/FEC/000281
                      Data: [1940?]
 

O fado ultrapassou as barreiras sociais que o ligavam à pobreza e à marginalidade e passou a ser privilégio de ricos e pobres e a frequentar os grandes salões, mas também os bairros típicos de Lisboa. Foi canção símbolo do regime salazarista, passou a "reacionário” no 25 de abril, mas continuou sempre a fazer parte da alma lisboeta e, em Novembro de 2011, foi considerado património imaterial da humanidade.

A sua origem continua por desvendar, embora existam algumas teses. No início do século XIX Lisboa era uma cidade onde a pobreza e a marginalidade cresciam, a par da prostituição, das tabernas e dos bordéis. Todo este clima era propício às canções populares e sendo uma forma de entretenimento das classes mais pobres, que se reviam neste género musical, muitas casas de fado, onde se cantava em Lisboa, surgiam nos bairros de Alfama, Castelo, Mouraria, Bairro Alto, Madragoa e andavam de mão dada com a prostituição e a marginalidade. 

Este estilo musical era cantado de forma espontânea por indivíduos à margem da sociedade lisboeta, ligados às transgressões sociais, mulheres conotadas como prostitutas e homens com reputação de marginais, o que por sua vez levou a uma forte rejeição do fado, pelas outras esferas sociais. Foi também neste século que se consolidaram os padrões de comportamento burgueses, com regras severas e restrições que geravam confrontos com estes tipos sociais: criminosos, vadios, marinheiros, fadistas marialvas e jovens burgueses que percorriam as ruas dos bairros boémios e marginais de Lisboa. Este género de comportamentos não se coadunava com o modelo ideal de família burguês, onde o pai trabalhava, a mãe cuidava do lar e da família e os filhos eram obedientes. 

É neste contexto que surge o mito de Maria Severa Onofriana (1820-1846), uma jovem  que cantava o fado nas ruas e nos cafés, considerada como a criadora deste estilo musical lisboeta e por quem se teria encantado o Conde de Vimioso (D. Francisco de Paula Portugal e Castro, 1817-1865). Após a sua morte, aos 26 anos, é criado um mito à sua volta, acrescentando ao fado um conceito de fatalismo, de tristeza e resignação pela vida difícil. Segundo o mito, terá sido o conde que levou a Severa e o fado, associado a todo o género de perversões, aos salões da aristocracia. Na realidade, a pouco e pouco, o fado e as fadistas começam a ganhar terreno afastando-se progressivamente do submundo,  para se tornarem cada vez mais populares, o que irá dar lugar à mudança. Nos anos 30 e 40, Hermínia Silva (1907-1993) fica conhecida como uma grande fadista no teatro de revista. Na primeira metade do século XX, surgem novas possibilidades de expansão para o fado, proporcionadas pela rádio e pelos discos. Por esta altura, os fadistas começam a ser reconhecidos como profissionais. Desta época destacam-se Alfredo Marceneiro (1891-1982) e Ercília Costa (1902-1985), entre outros, que trouxeram ao fado novas contribuições, mas será Amália Rodrigues (1920-1999) quem irá revolucionar o fado, com a sua voz e o seu estilo únicos. Amália é simbolo do fado e de Portugal nos vários continentes e tornou-se uma referência para muitos cantores.

Depois do 25 de Abril, o fado, conotado com o regime salazarista, perdeu popularidade e passou por várias vicissitudes. Na rádio e na televisão deixou de se ouvir este estilo musical, que só vai  recuperar de novo o seu espaço a partir da década de 80 do século XX. Por esta altura Carlos do Carmo é a primeira figura masculina do fado e os Madredeus trazem uma interpretação musical com uma forte influência do fado abrindo  novo caminho para os palcos internacionais. Atualmente o fado é geralmente cantado por uma só voz e acompanhado pela guitarra e a viola. Existem vários tipos de fado: fado menor, fado corrido, fado mouraria e fado canção, mas tradicionalmente é uma música triste, nostálgica, saudosista e até fatalista. 

O fado conta uma história em que os temas são variados,  mas  o sentimento está sempre presente em todos eles, na tristeza, na saudade, no sofrimento ou no destino. Há quem tenha dito que o fado é a alma de um povo e que para se ser fadista, é preciso ter alma fadista, sentir e passar aos outros o que se sente, através de toda uma performance, que passa pela voz, mas também pelo que se veste, pelos gestos e expressões corporais. O fado é um elemento importante da nossa identidade, que leva Portugal até aos grandes palcos do mundo, para falar da sua cultura, da sua língua e dos seus poetas. É um estilo musical exclusivamente português e Lisboa é claramente o local com mais tradição, para se cantar, ouvir e sentir o fado. Na imagem selecionada para documento do mês, da autoria do fotógrafo Ferreira da Cunha podemos observar a atuação de uma fadista no Solar da Alegria (pensamos tratar-se de Alcídia Rodrigues) e os dois guitarristas que a acompanham, Jaime Santos (guitarra portuguesa) e Martinho d’Assunção (viola). 
Encontre este e outros documentos na sala de leitura da base de dados do Arquivo.

 
Otília Esteves
Arquivo Municipal de Lisboa



Bibliografia:

CARITA, Alexandra - Fados nossos. Lisboa: Alêtheia Editores, 2006.

CARVALHO, Pinto de - História do fado. 3ª ed. - Lisboa: Dom Quixote, 1992.

CRIMINOSOS, boémios, prostitutas e outros marginais: o mundo da transgressão social. [Em linha]. [Consult. 22 Mar. 2017] Disponível em https://educar.files.wordpress.com/2007/07/boemia.pdf

NERY, Rui Vieira - Para uma história do fado. [Lisboa]: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, DL 2011.

SUCENA, Eduardo - Lisboa, o fado e os fadistas. 2ª ed. revista e ampliada. Lisboa: Vega Editora, 2002.

SANTOS, Vítor Pavão dos; CABRITA, Augusto - Amália: uma estranha forma de vida. Lisboa: Verbo, cop. 1992.

PAIS, José Machado - A prostituição na Lisboa boémia dos inícios do século XX. Análise Social. [Em linha]. vol. XIX (77-78-79), 1983-3.°, 4.° 5.°, p. 939-960. [Consult. 22 Mar. 2017] Disponível em http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223465545K3hSC1wx0Mi31EY9.pdf




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