Novembro 2021

 
 
 

Os jazigos particulares de Luz Soriano

Desenho do jazigo particular nº 703, cemitério dos Prazeres | Código de referência: PT/AMLSB/CMLSBAH/GCEM/001/05554-00001









Título: Desenho do jazigo particular nº 703, cemitério dos Prazeres

Data: 1850

Código de referência:

PT/AMLSB/CMLSBAH/GCEM/001/05554


Entre o extenso acervo à guarda do Arquivo Municipal de Lisboa encontram-se 14467 processos de jazigo particular1 referentes às edificações existentes nos sete cemitérios do município da capital portuguesa. Deste conjunto, 6350 documentos pertencem ao 1º cemitério-Alto de São João; 6692 ao 2º cemitério-Prazeres; 788 ao 3º cemitério-Ajuda; 399 ao 4º cemitério-Benfica; 107 ao 5º cemitério-Olivais; 125 ao 6º cemitério-Lumiar e seis ao 7º cemitério-Carnide.

Os processos de jazigo particular são constituídos, de um modo geral, pelos documentos, de acordo com as determinações do Regulamento dos cemitérios municipais, necessários para requerer à Câmara Municipal de Lisboa a concessão de terreno para a sua construção ou remodelação. Podem incluir comprovativos do pagamento de taxas de concessão; o requerimento de averbamento quando da compra do terreno ou da transmissão do jazigo e respetivos documentos comprovativos da transmissão e do pagamento dos impostos devidos ao Estado; peças desenhadas; memórias descritivas; projetos de obra; títulos de jazigo e demais requerimentos sobre quaisquer intervenções a realizar, quer de caráter construtivo quer administrativo, sempre dirigidos ao presidente da Edilidade.

A informação contida nestes processos tem contribuído de forma significativa para o estudo da arte e da arquitetura funerárias, bem como dos seus intervenientes. Em muitos casos, encontra-se informação que abona estudos genealógicos, biográficos e, por vezes, elementos relacionados com questões de saúde pública.

O documento em destaque é uma peça desenhada do jazigo particular 703 (do processo de jazigo 7492), inicialmente propriedade de Simão José da Luz Soriano. Figura incontornável da historiografia portuguesa, Luz Soriano foi historiador, político e escritor, tendo sido um acérrimo defensor do movimento liberal iniciado em 1820. A ele se deve boa parte do conhecimento deste período que desencadeou mudanças significativas na estrutura política, social e económica de Portugal, através de obras como "História da Guerra Civil”, "Vida do Marquês de Sá da Bandeira”, "Utopias Desmascaradas do Sistema Liberal em Portugal”, "Revelações da Minha Vida e Memórias de Alguns Factos e Homens meus Contemporâneos”, entre outras. Em 2021 assinalam-se 130 anos da sua morte.

A construção do jazigo de Luz Soriano no Cemitério dos Prazeres foi autorizada em 10 de outubro de 1850, conforme requerimento que consta do processo, onde é mencionado o letreiro a ser gravado no jazigo, "Jazigo de Simão José da Luz Soriano, e de alguns seus íntimos amigos”. Este jazigo recebeu restos mortais de pessoas próximas do seu proprietário, como o Conselheiro Pedro Alexandrino da Cunha, de acordo com informação retirada do processo: "Aqui se recolherão os despojos mortaes do Exmo Serv. Conselheiro Pedro Alexandrino da Cunha, que foi Capitão de Mar e Guerra da Armada, Deputado ás cortes em duas legislaturas, Comendador das ordens de Avis e Torre-e-Espada, Governador Geral da Província de Angola, ultimamente de Macau, onde faleceu aos seis de Julho de 1850, com quarenta e nove anos de idade.”

Contudo, Luz Soriano não chegou a ser depositado neste jazigo, pois vendeu-o a José Romão, em 17 de setembro de 1890, tendo edificado um outro, com o número 3548 (do processo 10318), em terreno comprado à Câmara Municipal de Lisboa. Em 1992, conforme o aviso nº 300 publicado no Diário Municipal 16516, de 4 de dezembro de 1992, foi dada como prescrita a concessão do primeiro jazigo, passando para posse da Câmara.

No processo referente ao segundo jazigo de Luz Soriano, encontra-se, entre outros documentos, o seu testamento, datado de 11 de março de 1891. Com efeito, este exemplo é demonstrativo de como a documentação dos processos de jazigo pode conter informação relevante para o estudo e investigação em diversas áreas. Do testamento transcreve-se um excerto:

"Declaro eu, Simão José da Luz Soriano, que sou bacharel formado em medicina, pela universidade de Coimbra, oficial maior graduado, e sub-director geral reformado da secretaria de estado dos negócios da marinha e ultramar, nascido em Lisboa na rua de Marcos Barreiro, freguezia de Santa Catharina, onde fui Baptisado, sendo o dia do meu nascimento o de 8 de setembro de 1802, como filho legitimo de Domingos José Soriano, e de Angélica Theresa de S. José, querendo arranjar os meus negócios domésticos para depois do meu fallecimento, faço as presentes disposições, que espero se cumpram tão fielmente quanto desejo, por serem a verdadeira expressão da minha última vontade.

Peço que depois do meu falecimento só passadas 24 horas sejam os meus restos mortais conduzidos para o meu jazigo-monumento do cemitério dos Prazeres com o nº 3:548, tendo a frente para a rua n.12, fazendo esquina com a rua 35. Se o meu falecimento fôr fóra de Lisboa, peço ainda assim que o meu cadaver seja a ella conduzido, e recolhido ao meu dito jazigo.
Peço mais que se não façam convites para o meu enterro, conduzindo-se, humildemente, o meu cadáver apenas em trem decente, acompanhado de outro egual, em que vá o parocho da minha freguezia, ou o que suas vezes fizer.

Ao jazigo onde se recolher o meu cadaver serão igualmente recolhidos os despojos mortaes da governante de minha casa, a senhora D. Anna Adelaide Guimarães, estando ainda solteira, e ella assim o queira também, pois já no meu jazigo-monumento tem logar destinado para quando faleça depois de mim. […]

Além dos precedentes legados, deixo também á camara municipal de Lisboa a quantia de 8:000$000 réis em dinheiro para a fundação e perpetua administração de uma escola publica e gratuita de instrucção primaria, devendo ter nas sacadas da casa, que para a dita escola igualmente lhe légo na antiga rua do Carvalho uma taboleta com o letreiro, em caracteres bem legíveis para os transeuntes, dizendo: Escola publica e gratuita, de instrucção primaria de Simão José da Luz Soriano, tendo por esta fórma o caracter de perpetuidade. […]

Não me podendo jámais esquecer o benefício que na minha minoridade e pobreza recebi da casa-pia de Lisboa, deixo-lhe mais para instrucção dos seus alunos, dedicados ás lettras, todos os meus livros de estante brochados e encadernados. [...]

Ao meu particular amigo, sr. Augusto Leire Guimarães, editor de uma segunda edição da minha Historia do Cerco do Porto, residente n’esta cidade, deixo todos os exemplares da Historia do reinado d’el-rei D. José, em minha casa de acharem ainda em papel por ocasião da minha morte, bem como os exemplares em brochura, que n’ella houver da minha Historia da Guerra Civil, pertencentes á 2.a e 3.a época, pois os da 1.a época há anos que já se esgotaram. […]

Peço que o meu retrato a óleo, existente na minha sala de visitas de Lisboa, e pintado pelo francez Tony de Berg, como se vê da sua própria assignatura, seja mandado entregar á Academia de Bellas Artes; […]”


Conforme testamento, Luz Soriano nasceu em Lisboa, em 8 de setembro de 1802, e faleceu na mesma cidade em 18 de agosto de 1891, tendo sido sepultado no "jazigo-monumento” dois dias depois. Este jazigo é ocupado, segundo o livro de movimento, pelos seus restos mortais e os da sua governanta, falecida a 1 de maio de 1901. Também de acordo com informação contante no processo, encontram-se igualmente depositados os restos mortais do Conselheiro Pedro Alexandrino da Cunha (que terá sido transferido do primeiro jazigo para este). Por legado, a Câmara Municipal de Lisboa é sua concessionária.
O jazigo, situado na rua 12 do cemitério dos Prazeres, tem uma inscrição que, em poucas palavras, dá a conhecer muito do que foi a vida do seu proprietário: "LUZ SORIANO NOTÁVEL SE TORNOU ESTE CIDADÃO ENTRE OS SEUS CONTEMPONANEOS TANTO PELO GRANDE EMPENHO COM QUE ABRAÇOU E DEFENDEU A CAUSA CONSTITUCIONAL COMO PELA SUA DEDICAÇÃO ÀS LETRAS, TORNANDO-SE ESCRIPTOR DISTINCTO, E FAVORECEDOR BENEMÉRITO DA INSTRUÇÃO PRIMÁRIA E SUPERIOR”.

Muito se tem escrito sobre a vida e obra de Luz Soriano, sugerindo-se a consulta, entre outros estudos, da sua biografia, da autoria de Ana Maria Pina (ISCTE-IUL/CEHCP), em "Dicionário de historiadores portugueses: da Academia Real das Ciências ao final do Estado Novo”.

Pode encontrar este documento e outros documentos na base de dados do arquivo.

Ana Saraiva
Arquivo Municipal de Lisboa


1 Esta documentação é disponibilizada apenas mediante formalização de pedido de consulta, podendo o seu acesso ser condicionado por razões de proteção de dados pessoais.





Fontes e Bibliografia

Aviso nº 300. Diário Municipal nº 16516. 4 de dezembro de 1992. Lisboa: Câmara Municipal.

Câmara Municipal de Lisboa, Cemitério dos Prazeres, Livro de movimentos de jazigo nº 3.

Câmara Municipal de Lisboa, Cemitério dos Prazeres, Livro de movimentos de jazigo nº 15.

Câmara Municipal de Lisboa, Processo de jazigo particular 7492.

Câmara Municipal de Lisboa, Processo de jazigo particular 10318.

PINA, Ana Maria - SORIANO, Simão José da Luz (Lisboa, 1802 – Lisboa, 1891). In MATOS, Sérgio, coord. - Dicionário de historiadores portugueses: da Academia Real das Ciências ao final do Estado Novo. [Consult. 13/10/2020]. Disponível na Internet: DIC:HP_historiadores (bnportugal.gov.pt)

RAMOS, Paulo -Simão José da Luz Soriano: de liberal Inflamado a homem conformado. Porto: [s.n.] 2011. Dissertação de mestrado em História Contemporânea, apresentada à Faculdade de Letras do Porto. [Consult. 15/10/2020]. Disponível na Internet:

https://repositorioaberto.up.pt/bitstream/10216/57437/2/TESEMESPAULORAMOS000148729.pdf



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