Setembro 2020

 
 
 

Isto é Lisboa: Estufa Fria e Jardins


Título: Isto é Lisboa: Estufa Fria e Jardins
Código de referência: Hist010
Data: 1959
 
Estufa Fria e Jardins | Código de referência: Hist010
O cinema surge em Portugal em 1896 com o portuense Aurélio da Paz dos Reis, fotógrafo amador e comerciante estimado que nesse mesmo ano realiza e exibe os seus filmes, no Teatro Príncipe Real do Porto a 12 de novembro, e no Teatro de São Geraldo em Braga a 21 e 23 do mesmo mês. Contrapondo a presença deste portuense pioneiro, surge em Lisboa, em 1899, na figura excêntrica de Manuel Maria da Costa Veiga, um segundo cineasta nacional. Inicia-se então o chamado período primitivo do cinema português, um período próspero graças à adesão do público que encontra nestas exibições um entretenimento barato. O povo, a burguesia e certos setores intelectuais são rapidamente conquistados pelo cinematógrafo. No mesmo ano, Manuel da Costa Veiga funda com Bobone a primeira empresa produtora e distribuidora de filmes que realiza documentários e reportagens, a Portugal Film. Em 1904, é inaugurada em Lisboa a primeira sala de cinema, o Salão Ideal, e no Porto, o Salão High Life, inicialmente a funcionar num barracão de madeira. Pelos vários Animatógrafos a funcionar por todo o país, exibiam-se filmes portugueses, franceses, americanos, italianos e dinamarqueses.

Em 1918, funda-se no Porto a empresa produtora e distribuidora Invicta Film que seguia o modelo europeu e, em Lisboa, a Lusitânia Film, influenciada pelos critérios americanos. A Invicta Film, não conseguindo superar a concorrência das cinematografias estrangeiras que entravam em Portugal, encerra cerca de 1924 e a Lusitânia Film, não sobrevivendo ao encerramento das casas de espetáculo decretado no período da febre pneumónica, acaba por ter de vender os seus haveres em leilão. No entanto, a Lusitânia Film ficará na história do cinema português, também pela invulgaridade da estratégia de exibição "que concebeu e pôs em prática no Coliseu dos Recreios: dividido o espaço interior em quatro sectores de exibição e pendurado na cúpula um quadrilátero gigante com uma tela em cada face, conseguia-se exibir em simultâneo quatro filmes para quatro plateias distintas. Ao público era permitido mudar de plateia e de filme sempre que o desejasse”1, o que em dúvida seria uma mais valia para os espectadores ávidos de entretenimento.

Ainda no ano de 1918, estreia-se o Jornal dos Condes, produzido por J. Castello Lopes e pouco tempo depois, em 1919, o Actualidades Portuguesas, produzido pelos Serviços Cinematográficos do Exército, criados em 1917. Estes acompanhavam a presença dos soldados portugueses na Primeira Guerra Mundial num período em que os documentários e os Jornais de Actualidades singraram com esse contexto noticioso. Mas outros temas do quotidiano foram objeto deste formato, retratando e acompanhando atividades e circunstâncias várias. No caso português, Luis de Pina refere que "Embora fornecessem um panorama actualizado da vida portuguesa, registando "paisagens, costumes, factos insólitos ou curiosos, acontecimentos políticos, culturais e sociais, a verdade é que essas imagens portuguesas eram como que subsidiárias dos filmes populares que enchiam as salas vindos do estrangeiro”2. Ainda assim, em Portugal e nos países com acesso ao cinematógrafo um pouco por todo o mundo, o que é um facto, é que estes jornais feitos de imagens em movimento vão acompanhar a produção e disseminação das atividades cinematográficas ao longo das décadas que se seguem.

Serve esta introdução, para num hiato temporal apresentarmos uma coleção de pequenos filmes do acervo do Arquivo Municipal — Videoteca. São filmes de registo documental muito próximo dos Jornais de Actualidades, e que, singularmente, foram produzidos pela Câmara Municipal de Lisboa, e exibidos mensalmente na RTP, durante as décadas de 1950 e 1960. A Revista Municipal, do 4º trimestre de 1960, num pequeno artigo intitulado "O Programa ´Isto É Lisboa´ na Radiotelevisão Portuguesa”, noticia estar a execução desta série a cargo da Secção de Propaganda e Turismo, dos Serviços Centrais e Culturais, em colaboração, com a Radiotelevisão Portuguesa. E salienta, descrevendo o âmbito destas produções, que "estes programas televisionados”, são exibidos mensalmente, tendo por "objectivos essenciais, divulgar as actividades camarárias dominantes, mostrá-las ao público, torná-las conhecidas, e chamar a atenção dos portugueses para as belezas, os bairros típicos, os monumentos, a história, o pitoresco da capital. É um programa tipicamente lisboeta, em exclusivo dedicado à cidade.”3

A história deste espólio carece de uma investigação tendente a apurar os contornos desta produção. Algumas hipóteses podem ser ponderadas, contudo, a fundamentação é parca por ausência de fontes seguras. Sabemos, por este artigo da Revista Municipal, da existência de uma colaboração entre a Câmara Municipal de Lisboa e a Radiotelevisão Portuguesa, e estar a execução desta série a cargo da Secção de Propaganda e Turismo, dos Serviços Centrais e Culturais. Mas não dispomos de outras informações sobre os contornos dessa colaboração: o que lhe deu origem, quem realizava os programas e quem assumia as várias responsabilidades da produção, quantos episódios foram produzidos, durante quantos meses foram exibidos e outros detalhes. O certo é que parte significativa deste espólio, em suporte 16mm, está depositada no Arquivo Nacional de Imagem em Movimento (ANIM), instituição com a qual, em parceria, atualmente se procede à digitalização dos filmes para posterior integração no Arquivo Municipal de Lisboa.

Destaco alguns excertos da sui generis narração em voz off que os caracteriza e de que é exemplo repre-sentativo a abertura do episódio Isto é Lisboa: Parques e Jardins Municipais, muito embora não sendo o objeto principal deste artigo, "A capital portuguesa no aspecto da arborização é uma das mais lindas da Europa. Toda a gente o sabe, toda a gente o vê! (…) na Primavera e no início do Verão, aparece a sinfonia do azul dos jacarandás, em cachos de flores. A imagem a preto e branco, não pode retratar a graça, a frescura, o encanto deste florido”. Este texto lírico acompanha planos fixos e panorâmicos sobre as copas da árvores e o casario na Avenida D. Carlos I. Uma outra cena, esta sobre o Jardim do Príncipe Real, documenta, "No Príncipe Real há uma impressionante alameda de álamos. Considerado de interesse público, há um centenário cipreste-português, cupressus lusitanica, de sombras apetecidas, que acolhem os leitores de jornais e a biblioteca da câmara”. Cipreste que ainda hoje com grande gáudio podemos contemplar e admirar, apesar dos atos de vandalismo a que tem sido sujeito.

Por fim, Isto é Lisboa: Estufa Fria e Jardins, presenteia de igual modo o espectador com singular narração, "Não, senhores espectadores, não é o que pensam. Melhor, o que pensariam, se acaso o Isto é Lisboa os não elucidasse previamente. Não é um trecho da Amazónia portentosa, mar dominador de árvores e trepadeiras. Nem da floresta africana, misteriosa, onde o perigo espreita a cada passo e cada momento.”, comenta a voz off após o genérico inicial em que a Câmara Municipal de Lisboa se apresenta com um filme dos Serviços Culturais. E prossegue com entusiasmo, "Tão pouco da selva luxuriosa indiana, renovada pelas monções. Não estamos na América, nem na África, nem na Índia. Pacata, sossegada e tranquilamente, apenas estamos a visitar a Estufa Fria, na cidade de Lisboa. Fazê-mo-lo para falar dos jardins da capital e também, claro está, com o intuito de apresentar um punhado de imagens sugestivas.”

E o ardor desta descrição acompanha imagens de plantas, flores e recantos da estufa, em grandes planos, planos aproximados e de conjunto, fixos e panorâmicos, numa montagem de corte, dinâmica, acompanhada por uma ambiência sonora épica e retumbante. Os primeiros dois minutos do episódio focam diferentes aspetos da estufa para depois se espraiar por exteriores variados. Com o castelo de São Jorge, o miradouro de Alfama, a praça do Cais do Sodré e o Mercado da Ribeira, os jardins de São Pedro de Alcântara, de Santa Catarina e do Príncipe Real, o Campo Pequeno, o Campo Grande e o Mosteiro dos Jerónimos, procura documentar os jardins da cidade. Sempre na senda da conceção paisagística, seguem-se os bairros, do Restelo e de Alvalade, a Torre de Belém, a Avenida da Igreja, o Largo do Rato e a Avenida Fontes Pereira de Melo. E o Parque de Monsanto, em planos aéreos e panorâmicos, de conjunto e de pormenor, com a narração a salientar as verbas do orçamento municipal dedicadas a manter os jardins da cidade e os viveiros da Quinta da Pimenteira ou as matas municipais, e a necessidade de os moradores cuidarem dos terrenos ajardinados confinantes com as respetivas residências. Termina o episódio com a Feira Parque no Jardim da Estrela, onde nos meses de Julho, Agosto e Setembro, com direção artística de Leitão de Barros, a Câmara Municipal proporcionava nesse ano às gentes da cidade, um recinto onde "pudessem divertir-se e passar as noites quentes lisboetas em algumas horas despreocupadas”. Comes e bebes, bailes, concertos, carroceis vários, espetáculos de dança, surgem num parque profusamente apinhado de convivas. O resultado líquido obtido com a feira era totalmente destinado a instituições de beneficência da capital, e daí que, "Quem vai ao Jardim da Estrela, além de se entreter dá esmola aos pobres!”, é a expressão que conclui este episódio de 15´.

Integrado nesta série que aguarda pesquisa, restauro e investigação, este episódio traz-nos também ao momento presente e à primeira edição do Festival Ecovídeo Lisboa Natura 2020. Dedicado ao ambiente natural da cidade, decorre este mês na Estufa Fria, com o objetivo de promover a reflexão, discussão e disseminação de temáticas ambientais e animais, especificamente relacionadas com a capital portuguesa, tomando a linguagem vídeo como suporte criativo. Esta proposta de leitura, registo e memória, incentiva a documentação de realidades do mundo natural passado e presente mas também de novas paisagens, sentidos e conteúdos, possíveis ou idealizáveis. Reunimos um conjunto de filmes que revelam diferentes olhares sobre a capital, em múltiplas variantes dessa dimensão que o estado atual de pandemia veio assinalar a urgência de observar e preservar, a natural. As obras participantes irão constituir um Arquivo Ecovideográfico em plataforma digital da CML.

Ilda Teresa de Castro
Arquivo Municipal de Lisboa - Videoteca


NOBRE, Roberto - Singularidades do cinema português. Lisboa: Portugália, 1964. p. 65

2 PINA, Luís de - História do cinema português. Lisboa: Publicações Europa-América, 1986. p. 22.

3 Revista Municipal. Lisboa: Câmara Municipal. Nº 87 (4º trim. 1960), p. 70.



Bibliografia:

CASTRO, Ilda Teresa de – Projecções Luminosas de Fotografia Animada e o Cinema em Portugal. Lisboa: FRESS, 1995

LISBOA. Câmara Municipal [Registo vídeo] – Isto é Lisboa: Estufa Fria e jardins. Lisboa: CM, 1959

LISBOA. Câmara Municipal [Registo vídeo] – Isto é Lisboa: Parques e jardins municipais. Lisboa: CM, 1959

Revista Municipal. [Em linha] Lisboa: Câmara Municipal. Nº 87 (4º trim. 1960).  [Consult. 03/07/2020] Disponível na Internet: 

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/RevMunicipal/RevMunII.htm

NOBRE, Roberto - Singularidades do cinema português. Lisboa: Portugália, 1964

PINA, Luís de – História do cinema português. Lisboa: Publicações Europa-América, 1986


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