Lisboa em 1147

 
 
 
Selo




Lisboa em 1147

Descrição de Lisboa em 1147 por um cruzado inglês que acompanhou D. Afonso Henriques na conquista da cidade:

" […] Ao norte do rio [Tejo] está a cidade de Lisboa, no alto dum monte arredondado e cujas muralhas, descendo a lanços, chegam até à margem do Tejo, dela separado apenas pelo muro. Ao tempo que a ela chegámos, era o mais opulento centro comercial de toda a África e duma grande parte da Europa. Está edificada sobre o monte Artabro, que se prolonga até ao mar de Cadiz. Separa do mundo o céu, as terras e os mares, por isso que ali acaba o litoral da Espanha, e em volta dela começa o oceano da Gália, e o limite setentrional, terminando ali o oceano Atlântico e o ocidente. Diz-se, por isso, que Lisboa é uma cidade fundada por Ulisses. Os seus terrenos, bem como os campos adjacentes, podem comparar-se aos melhores, e a nenhuns são inferiores, pela abundância do solo fértil, quer se atenda à produtividade das árvores, quer à das vinhas. É abundante de todas as mercadorias, ou sejam de elevado preço ou de uso corrente; tem ouro e prata. Não faltam ferreiros. Prospera ali a oliveira. Nada há nela incluso ou estéril; antes, os seus campos são bons para toda a cultura. Não fabricam o sal: escavam-no. É de tal modo abundante de figos, que nós a custo pudemos consumir uma parte deles. Até nas praças vicejam os pastos. É notável por muitos géneros de caça: não tem lebres, mas tem aves de várias espécies. Os seus ares são saudáveis, e há na cidade banhos quentes. Fica-lhe próximo o castelo de Sintra, à distância de quase oito milhas, no qual há uma fonte puríssima, cujas águas, a quem as bebe, dizem, abrandam a tosse e a tísica; por isso quando os naturais dali ouvem tossir alguém logo depreendem que é um estranho. Também tem limões. Nos seus pastos as éguas reproduzem-se com admirável fecundidade, por quanto só com aspirar as auras concebem do vento, e depois, sequiosas, têm coito com os cavalos. Desta forma se casam com o sopro das auras.

À nossa chegada tinha a cidade sessenta mil famílias que pagavam tributos, incluídos os dos subúrbios em volta, mas excluídos os homens que não estavam sujeitos à tributação de ninguém. O alto do monte é cingindo de uma muralha circular, e os muros da cidade descem pela encosta, à direita e à esquerda, atá à margem do Tejo. Ao sopé dos muros existem arrabaldes alcandorados nos rochedos cortados a pique, e são tantas as dificuldades que os defendem, que se podem ter em conta de castelos bem fortificados. A sua população era mais numerosa do que se pode imaginar […] ”.

ALVES, José da Felicidade (apresentação e notas) - Conquista de Lisboa aos Mouros em 1147. Carta de um cruzado inglês que participou nos acontecimentos. Lisboa: Livros Horizonte, 1989, p. 33-34.


O manuscrito original intitulado De Expugnatione Lyxbonensi, encontra-se na Universidade de Cambridge na biblioteca do Corpus Christi College, ms. nº 470, f. 125-146. Foi publicado pela primeira vez nos Portugaliae Monumenta Historica. Scriptores, vol. I, 1856, p. 392-405. A tradução para português deve-se ao latinista José Augusto de Oliveira, publicada em 1935 pela Câmara Municipal de Lisboa.




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