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Lembrar o 25 de Abril

Data: 2021-03-31



Em abril de 2021 relembramos a iniciativa O Arquivo saiu à rua, organizada em 2014 para assinalar os 40 anos do 25 de Abril.  Este projeto materializou-se numa exposição no espaço do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico e numa instalação no largo do Intendente, que foi acompanhada pela edição de uma publicação. 

Este projeto partiu de dois desafios: por um lado, trazer a público uma mostra do espólio de cartazes políticos do jornalista José Neves Águas à guarda do Arquivo e, por outro, apresentar os trabalhos de 18 artistas, ilustradores e designers que desenvolveram para o Arquivo Municipal de Lisboa a sua proposta de mupi para celebrar os 40 anos da efeméride.

Assim, enquanto os cartazes colecionados por Neves Águas que abrangem o período entre 1974 e 1989 declaram a contextualização político-social de uma época, as criações dos artistas convidados revelam o olhar contemporâneo sobre este marco da nossa história.

Também investigadores das áreas do design gráfico, tipografia e semiótica, deram um valioso contributo para a interpretação dos cartazes apresentados, fundamental para a conceção do livro / catálogo.

Pode encontrar na folha de sala da exposição, a identificação de todos os cartazes expostos e respetivos autores, e na folha de rua os mupis criados em 2014 por André Ruivo, Alex Gozblau, Alexandre Farto aka Vhils, Barbara Says, Gonçalo Pena, João Catarino, João Fonte Santa, João Maio Pinto, Jorge dos Reis, Lord Mantraste, Luís Miguel Castro, Luísa Barreto, Madalena Matoso, Mariana Cáceres, Nuno Saraiva, Pedro Silva, Susa Monteiro e Tiago Albuquerque.

O livro "O Arquivo saiu à rua" pode ser adquirido ou consultado na nossa biblioteca. Saiba como pode fazê-lo através do e-mail arquivomunicipal@cm-lisboa.pt.


o arquivo saiu à rua [o espólio]

Texto de Sofia Castro, curadora da exposição, sobre o espólio e que integra o livro "O Arquivo saiu à rua"


«No âmbito das comemorações do 40º aniversário do 25 de Abril foi idealizada a exposição o arquivo saiu à rua, tendo como ponto de partida o espólio particular do jornalista José Neves Águas, à guarda do Arquivo Municipal de Lisboa e constituído por um extenso conjunto de documentos políticos de caráter ideológico-partidário que abrange o período entre 1950 e 1989. 

A documentação anterior a 1974 reúne uma série de recortes de jornais, de panfletos impressos, de documentos datilografados e fotocopiados provenientes de diferentes associações, grupos e pessoas que se opunham claramente ao regime e que denunciavam a situação político-social e cultural da época. A documentação posterior a 1974 é constituída por cartazes políticos, panfletos de divulgação de comícios, de defesa dos direitos dos trabalhadores, da luta sindical, de manifestos e artigos de jornais e outros documentos de caráter político-partidário de propaganda eleitoral, produzidos no âmbito de sufrágios legislativos, autárquicos e comunitários.

Este vasto espólio, organizado de uma forma exemplar por José Neves Águas, é constituído por documentos políticos arrumados em pastas temáticas, ordenadas cronologicamente onde, na maioria dos documentos, incluindo os cartazes, é visível um carimbo com indicação do dia, mês e ano da produção/impressão (extremamente útil para a verificação da datação dos mesmos). A importância deste espólio é notória pela riqueza documental e visual, revelando pertinência do ponto de vista histórico, político e social bem como das inúmeras perspetivas que pode proporcionar para o estudo e compreensão deste momento tão singular.

A produção gráfica do período imediatamente a seguir à revolução de 74 torna-se particularmente interessante, pois apresenta uma transformação considerável de atitude e de vontade, como também se traduz numa diversidade de propostas gráficas, de conceitos compositivos e de práticas que testemunham não só o pulsar político-social como o frenesi cultural num anúncio de rutura com o passado.

Para a exposição foram apenas equacionados os cartazes políticos alusivos ou relativos ao 25 de Abril – de um total de cento e onze, foram selecionados para a mostra setenta, datados entre 1974 e 1989. O conceito expositivo encontrou neste conjunto de cartazes uma série de tipologias e características do universo gráfico praticado neste período de 15 anos e é neste âmbito que se desenvolve, direcionando a atenção para a evocação e o (re)encontro com imagens e palavras de ordem que contribuíram para a criação de uma memória coletiva, figurando  na história visual em Portugal. Aspetos como a composição, a tipografia, a semiótica, o reconhecimento de diversos movimentos e referências estilísticas, e alguns revivalismos, expressam uma configuração que atravessa as várias décadas.

Numa outra aproximação à coleção, podemos constatar que muitos cartazes foram produzidos para a divulgação de concertos, espetáculos, exposições e feiras que assinalam as comemorações do 25 de Abril e, do mesmo modo, também se podem encontrar cartazes que promovem iniciativas como a "corrida da liberdade” e outras atividades desportivas, que apelam ao convívio dos cidadãos de todas as idades ou ainda eventos mais politizados como manifestações e festas populares/desfiles.

Outro fenómeno é a presença constante da representação do cravo, elemento que se tornaria símbolo incontornável – a revolução dos cravos – e que nos surge nas mais variadas configurações, formas e feitios.

Interessa ainda salientar um número significativo de aparições de imagens fotográficas, uma forma eficaz para captar as multidões ou outros elementos como cravos, soldados, músicos ou o emblemático chaimite. Muitas vezes a imagem fotográfica surge camuflada, ora em pano de fundo (impresso a uma ou duas cores), ora recortada e aplicada como mais um elemento da composição, ou ainda manipulada posteriormente com "efeitos” (prática que tirava partido da natureza deste médium e da tecnologia da época), adivinhando-se já uma experimentação do uso da fotografia na linguagem gráfica.

Atendendo ao período em que foram realizados os cartazes, convivem exemplares extraordinários da autoria de artistas e designers como: João Abel Manta, Maria Vieira da Silva, Vespeira ou Sebastião Rodrigues, ao lado de cartazes de autor não identificado, ainda que, em alguns casos, seja registada a gráfica, são as associações promotoras ou os partidos políticos responsáveis pela organização das comemorações ou dos eventos que surgem identificados.»



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