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NOVA COLEÇÃO DISPONÍVEL ON-LINE

Data: 2021-01-04
Autor: Otília Esteves



Está disponível na base de dados um pequeno conjunto documental de Stuart de Carvalhais (1887- 1961), um artista eclético que ao longo de mais de 50 anos desenvolveu uma carreira multifacetada como caricaturista, ilustrador, cenógrafo, pintor, fotógrafo e autor de banda desenhada, multiplicando a sua colaboração pelos jornais e revistas, mais representativos da época, nomeadamente "O Século", "A Sátira", "Pages Folles", "Papagaio Real", o "Diário de Notícias", "A Choldra" e "A Batalha". Em todos eles deixou a sua visão, sobre a desigualdade, a exploração infantil, a condição feminina, a prostituição e a pobreza, reveladora do olhar crítico do autor. Filho de pai português e de mãe inglesa recebeu uma formação artística influenciada pelo modernismo emergente do início do século XX. A experimentação e o modernismo a par de um talento versátil e criativo são uma constante no trabalho do artista.

A produção artística mais significativa de Stuart ocorreu na década de 1920. Por esta altura intensifica a sua atividade com centenas de desenhos e ilustrações e torna-se no desenhador da moda, no cartoonista mais requisitado, mas é também o cartazista, o pintor, o cenógrafo e figurinista de teatro, o decorador d' "A Brasileira", da ementa do "Bristol Clube", da "Feira Popular", o desenhador de selos, o artista com mais capas de livros e de pautas de música, trabalho gráfico, com o qual foi duas vezes premiado em concursos internacionais, em Itália e Espanha.

Frequentador da boémia lisboeta produzia desenhos com extraordinária rapidez e facilidade, experimentando suportes e materiais improvisados e pouco convencionais, recuperados dos restos da cidade, papel de embrulho, cartão, guardanapos, graxa, borra de café e fósforos queimados, com que frequentemente traça composições. Com uma obra de dimensão incalculável e milhares de originais dispersos, talvez, não haja quem melhor do que ele tivesse retratado Lisboa, com os seus bairros típicos, as ruas, os cafés e teatros da época, comentando com ironia os hábitos e costumes da pequena burguesia, fixando cada personagem e cada tipo, mendigos, bêbados, prostitutas, ardinas e costureiras, recorrendo a símbolos e conceitos convencionais, tornando protagonistas, muitos dos que com ele se cruzavam.

Pelo traço rápido e inconfundível de Stuart ficaram para sempre associadas à capital, as varinas trajadas a rigor, com pregões a condizer, que ainda hoje predominam na memória visual tradicional; ficaram célebres as pernas das varinas e outras vendedeiras, mas também as prostitutas, os gatos matreiros e os bêbados, onde ele próprio se incluía, transpondo para o desenho um retrato crítico da época, uma Lisboa contrastante a preto e branco, elegante por vezes e sombria outras, mas sempre surpreendente, inteira e viva, evidenciada pela liberdade criativa e o desejo de experimentar do artista.

Otília Esteves
Arquivo Municipal de Lisboa



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